O poder das cores nas nossas vidas: # Violeta.

Violeta

Do púrpura do poder à cor da teologia, da magia, do feminismo e do movimento gay. Existem 41 tons de violeta.

Cor mista, com sentimentos ambivalentes

Violeta é a cor dos sentimentos ambivalentes. As pessoas mais a rejeitam do que apreciam. Para 12% das mulheres e 9% dos homens, o violeta é a cor menos apreciada. Apenas 3% das mulheres e dos homens citaram o violeta como cor predileta. Excetuando-se os poucos períodos em que esteve na moda, o violeta nunca foi especialmente apreciado. Para explicar essa rejeição, muitos argumentam não saber diferenciar, dizem que não sabem distinguir entre o violeta e o lilás. A diferença: o violeta é a mistura de vermelho com azul – o lilás tem, além dessas cores, o branco.

Antipatizar com algumas cores não representa problema para as pessoas que não trabalham com elas. Os artistas, entretanto, precisam conviver com todas elas, conhecer o efeito de cada uma delas. O professor da Bauhaus, Johannes Itten, obrigava seus alunos a usarem com maior frequência aquelas cores de que eles menos gostavam. Naturalmente, a maioria dos alunos descobria então que as cores de que menos gostavam tinham uma beleza que eles não imaginavam. Em nenhuma outra cor se unem qualidades tão opostas como no violeta: é a união do vermelho e do azul, do masculino e do feminino, da sensualidade e da espiritualidade. A união dos opostos é o que determina a simbologia da cor violeta.

O violeta tem um passado grandioso. Na Antiguidade, era a cor dos que governavam, a cor do poder. Esse tom de violeta é o púrpura.

Lilases, hematomas e violência

O lilás e o violeta são as cores mais raras na natureza. Os dois nomes dessas cores são, na maioria das línguas, idênticos aos das poucas flores que têm a cor violeta ou lilás. “Lilás” é a cor da flor de mesmo nome; em inglês ela se chama “lilac”; em francês, “lilas”. “Violet” e “violette” são, igualmente, tanto as flores quanto as cores em inglês, em francês e também em português. O alemão “Veilchen” contém também o radical da palavra “violeta”. O elemento químico “iodo” foi batizado em homenagem à flor violeta: em grego antigo, “violeta” é “íon”, radical de onde surgiu “iod”. Quando o iodo é aquecido, ele produz um vapor de coloração violeta.

É digno de nota observar a proximidade entre os termos “violeta” e “violência”. Em italiano, o nome da flor é “viola” – contudo, “violenza” é “violência” e “violare” corresponde ao verbo “violar”. Tanto na Inglaterra quanto na França, “violência” se diz “violence”, e em ambas temos também “violation”, “violação”. É historicamente plausível que essa ligação tenha surgido em virtude do púrpura, pois o violeta púrpura era na Antiguidade a cor dos governantes. Assim, essa cor, no tom púrpura, tornou-se a cor do poder. E o nome da violeta transformou-se no nome da violência.

A cor do poder

Já no Velho Testamento a púrpura é mencionada como cor de alto preço. Moisés recebe instruções de Deus acerca de quais cores os véus dos templos e as vestes sacerdotais devem ter: púrpura azulada, púrpura rubra e vermelho escarlate, bordadas em ouro. Púrpura azulada e púrpura rubra – isso significa púrpura feita a partir de dois tipos de caramujos; a cor variava também em função de alguns aditivos que eram utilizados, e que eram secretos. O vermelho escarlate, a segunda cor mais cara da Antiguidade, era o vermelho produzido a partir de piolhos.

A cor com que se deveria honrar a Deus era também, na Antiguidade, a cor dos soberanos. Quando o rei Baltazar bebeu vinho nas taças de ouro roubadas por seu pai de um templo em Jerusalém, apareceram desenhadas na parede as enigmáticas palavras “Mene mene tekel u-par-sin” e o rei, assustado, prometeu as mais altas honrarias a quem fosse capaz de decifrar o sentido dessas palavras: “Quem for capaz de ler as palavras e explicar seu significado será vestido de púrpura e receberá uma corrente de ouro no pescoço.” Vestir púrpura era um privilégio maior do que usar ouro.

A preparação de uma vestimenta púrpura durava anos: através das rotas das caravanas se transportava a seda da China e de Damasco, na Síria; ali ela era tecida pelos melhores tecelões de seda do mundo. Em seguida os tecidos eram levados a Tiro, na Fenícia, onde eram tingidos de púrpura. E de Tiro os tecidos tingido seguiam para Alexandria, no Egito, onde eram bordadas a ouro.

No Império Romano, somente o imperador, sua mulher e o herdeiro podiam vestir túnicas na cor púrpura.  Aos ministros e altos funcionários era permitido usar somente uma borda púrpura na túnica. Usar sem permissão a cor púrpura era punido com a pena de morte. Júlio César decretou que os senadores poderiam usar faixas púrpura na toga, porém ele era o único que podia trajar uma túnica inteiramente púrpura. Cleópatra, rainha do Egito, que não tinha de obedecer ao decreto de César, tingiu de púrpura a vela de seu barco.

Por volta do ano 300, o imperador Diocleciano decretou a tinturaria da púrpura um monopólio imperial. Ele mudou as tinturarias para Bizâncio, mais tarde Constantinopla e atualmente Istambul. Os imperadores romanos orientais conservaram em segredo o tingimento com púrpura. A púrpura era, por lei, a cor imperial. A tinta com que o imperador assinava também era púrpura, e essa tinta ficava sob a guarda de um funcionário que portava o título de “guarda do escritório imperial”. O aposento onde a imperatriz dava à luz seus filhos era todo atapetado de seda púrpura.

Nos mosaicos de São Vitale, em Ravena, o imperador Justiniano e a imperatriz Teodora, em companhia de sua corte, mostram que é dever de cada pessoa saber que quantidade de púrpura ela carrega. O imperador está totalmente envolto em púrpura. Como, além disso, ele era também o cabeça da Igreja, leva ainda uma auréola. Junto dele um bispo – sem auréola – luz numa estola dourada sobre uma túnica branca, mas carrega apenas a quantidade permitida de púrpura: as bordas das mangas e as bordas da túnica. Os mais altos funcionários podiam usar, costurados em suas túnicas, um retângulo grande de tecido púrpura. Diante do imperador está a imperatriz Teodora. Ela também usa auréola e está totalmente vestida de púrpura. As damas de sua corte que tiveram a honra de ser eternizadas no mosaico não estavam autorizadas a levar nada na cor púrpura.

Os historiadores da arte Hagen y Hagen citam, em sua descrição dos mosaicos ao historiador Procópio, contemporâneo de Teodora, que em 532, ano em que houve uma rebelião, a imperatriz se recusou a partir para o exílio. Ela esclareceu: “Não quero jamais ter de renunciar ao púrpura, e não quero jamais viver nem sequer um dia em que minhas acompanhantes não se dirijam a mim como sua imperatriz. O púrpura faz uma boa mortalha.” Teodora ordenou que a revolta fosse reprimida. Houve quarenta mil mortos, mas a coroa estava a salvo. Quando morreu, em 548, foi enterrada com uma túnica púrpura.

O púrpura continuou sendo a cor do poder – enquanto o púrpura autêntico existiu. As telas tingidas de púrpura chegavam ao Ocidente apenas como presentes dos imperadores bizantinos. O manto púrpura que Carlos Magno vestiu quando foi coroado foi um presente de Bizâncio. Porém, desde 1453, quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos, o púrpura desapareceu. As tinturarias imperiais foram destruídas e os tintureiros, assassinados. O ocaso do Império Romano do Oriente foi também o fim do tingimento com o púrpura dos caramujos. A partir de então passou a ser o carmim, a tinta vermelha dos piolhos, a mais cara das cores. E foi assim que o púrpura passou a ser vermelho.

A cor da teologia

No acorde da devoção, o branco é a cor divina; o preto é a cor política; o violeta é a cor da teologia. A única instituição pública cujos ministros trajam violeta é a Igreja Católica. Violeta é a cor do escalão de bispos e de prelados, cujas batinas, nos atos oficiais, são dessa cor. Também nas batinas de uso diário, pretas, o escalão é dado a conhecer: na batina dos bispos os botões são violeta, na dos cardeais são vermelhos. O violeta eclesiástico também teve sua origem no púrpura. A cor do poder temporal é, na interpretação eclesiástica, a cor da eternidade e da justiça. Assim a Igreja resolveu o dilema de, apesar de lutar pelo poder, se apresentar como humilde servidora de Deus.

Enquanto existiu o autêntico púrpura de caramujo, o violeta foi a cor dos cardeais de mais alta posição. Antigamente, um cardeal costumava ter mais poder e dinheiro do que um rei. Porém, poucos anos depois que a tinturaria do púrpura desapareceu de Constantinopla, o papa Paulo II ordenou, em 1464, que as vestimentas dos cardeais passassem a ser tingidas de vermelho. Agora o “púrpura dos cardeais” passou a ser o vermelho levemente azulado. As vestes dos bispos de graduação mais baixa passaram a ser tingidas com uma mistura de carmim com o índigo, cor bem menos dispendiosa – mistura que resultava no violeta. Assim, o escalonamento das cores foi rearranjado de acordo com seu preço.

Quando os professores das universidades ainda usavam vestes talares, os professores de Teologia apareciam com boinas violetas. Em muitas universidades o próprio talar era violeta, mas na maioria dos casos o talar era preto com a borda violeta. Na Igreja Evangélica, o violeta permanece até hoje como cor eclesiástica. Nos dias em que há serviço religioso içam-se bandeiras brancas com uma cruz violeta. As placas para anunciar o serviço religioso evangélico mostram uma igreja cor de violeta . No romance de Alice Walker, A cor púrpura, flores lilases do campo simbolizam o fato de Deus estar em tudo e em todos. A cor lilás ou violeta é aqui, também, a cor do divino e da fé.

A mais singular e extravagante das cores

À primeira vista, quando se vê uma pessoa vestida de violeta não se pensa em humildade, recato ou penitência – o violeta é percebido como uma cor extravagante. Violeta-prata-ouro é o acorde da elegância não convencional, ao contrário do preto-prata-ouro, que é o acorde da elegância tradicional. O violeta é a mais singular das cores. Nada do que vestimos, nada do que nos rodeia é violeta por natureza. O que existe na cor violeta existe sempre também em muitas outras cores. O violeta denuncia que a escolha foi conscientemente direcionada para uma cor especial.

Ninguém usa o violeta de forma impensada, como se usa o bege, o cinza ou o preto. Quem se veste de violeta quer chamar a atenção, distinguir-se da massa. Quem escolher o violeta sem verdadeiramente apreciá-lo dá a impressão de estar disfarçado, transmite a impressão de que a cor tem mais força do que a pessoa que a usa. Quem se veste de violeta tem que saber por que motivo o faz.

Quando Elizabeth Taylor esteve casada com o político republicano John Warner e o acompanhava em suas campanhas, não podia nunca usar o violeta – sua cor predileta, que combinava com seus olhos – porque o partido achava que uma cor que costumava ser usada por reis não era a mais adequada para um partido que se chamava republicano. Quando Warner venceu as eleições, Elizabeth celebrou a vitória usando um conjunto de calça e paletó na cor violeta.

A cor da magia, da metempsicose e do signo de Gêmeos

Violeta é a cor da magia. Entretanto, o preto foi citado com maior frequência – isso porque as pessoas, espontaneamente, fazem a associação com o termo “magia negra”; contudo, é só por meio do violeta que o preto se torna mágico e misterioso. O que veste um feiticeiro? “Uma túnica violeta!”, a maioria diz de forma espontânea. Também as bruxas malvadas se vestem de violeta, as fadas bondosas se vestem de lilás.

O violeta dos magos está inscrito na tradição do púrpura. Quando Moisés anunciou aos israelitas que os sacerdotes deveriam vestir túnicas de cor púrpura, tantos os sacerdotes quanto os magos ainda eram os mediadores do além, possuíam o mesmo status. Como complementar ao amarelo, que é a cor do entendimento, o violeta é a cor da fé – e também da superstição.

O violeta vincula a sensualidade à espiritualidade, sentimento e intelecto, amor e abstinência. No violeta todos os opostos se fundem. O violeta é a cor mais íntima do arco-íris, ele se transmite ao invisível ultravioleta. Assim, o violeta marca a fronteira do visível com o invisível. Antes de cair a noite, o violeta é a última cor que antecede a escuridão total.

Na simbologia indiana, o violeta é a cor da metempsicose, a transmigração das almas. Na psicologia moderna é a cor dos alucinógenos, que devem abrir a consciência a estímulos irreais. Eles são frequentemente negociados sob denominações violeta como “purple heart” ou “purple rain”. Em 1970, o tema da década era a “expansão da consciência”; sincronisticamente o violeta foi eleito a cor da moda. À época, alcançava fama a banda de rock Deep Purple.

O violeta simboliza o lado sinistro da fantasia, a busca anímica, tornar possível o impossível. A obra do pintor surrealista Brauner Gêmeos, simbolizando o signo astrológico do mesmo nome, à qual foram atribuídos poderes proféticos, liga o laranja, a cor das mutações, com a magia do violeta.

A maioria dos astrólogos vincula o violeta ao signo de Gêmeos, pois, assim como acontece com o signo de Peixes, sempre representado por dois peixes, o signo de Gêmeos também é representado por um ser duplicado, no qual os opostos se unem e que vai se transformando sempre em seu contrário. “Duas almas habitam, ai!, em meu peito”, esse deveria ser o tema condutor do signo de Gêmeos, e elas estão simbolizadas nos opostos vermelho e azul, masculino-feminino.

O signo de Gêmeos é regido pelo planeta Mercúrio, que é o deus do comércio – e comerciar significa sempre, também, transformar. Nenhuma cor se adequa melhor a esse signo do que o mutável, talvez também inconstante violeta.

A cor da sexualidade pecaminosa

O mais belo de todos os pecados é, para muitos, a sexualidade. Somente por meio do violeta o vermelho ganha uma vibração indiscutivelmente sexual. Vermelho-violeta-preto-rosa, não importa em que sequência, é o acorde → da imoralidade, → da sedução, → da sexualidade. O violeta contém mais sexo do que o vermelho. E esse é o mistério do violeta. Oscar Wilde chamou a sexualidade proibida de “as horas violetas no tempo cinzento”. E Keats, o famoso poeta, criou fantasias sobre o “palácio dos doces pecados, atapetado de violeta”.

Existe nos Estados Unidos um coquetel que é tão famoso quanto temido, denominado “purple passion” (paixão púrpura), que, em virtude de seu alto teor alcoólico, promete conduzir a uma sexualidade livre de inibições.

A cor dos originais e dos inconformistas

O violeta pode ser considerado como típica cor da moda – apesar de só muito raramente se tornar um hit. Muitos avaliam o violeta como excessivamente ousado. No acorde do que se considera estar “em voga”, predomina o preto – a cor favorita do vestuário jovem; mas “moda”, na real acepção da palavra, o preto não é –pois ele é atemporal. Realmente “moda”, ou seja, o que depende do tempo, do que estiver em voga, são o violeta e o laranja; são cores que, por algum tempo, são consideradas totalmente out; depois, por um breve período, voltam a ser in.

O violeta é inconformista, é original. Apesar de sua frieza, o violeta é uma cor sonora – e esse efeito se torna especialmente forte quando se combina com a alegria do laranja. Violeta-laranja: não existe nenhuma combinação de cores que fuja mais às convenções do que essa.

A cor do feminismo

O movimento feminista começou com a luta pelo direito de voto para as mulheres. “Sufrágio” significa “direito de voto”, e assim essas mulheres eram chamadas de “sufragetes”. A luta começou em 1870, na Inglaterra. Naquela época estavam excluídos do direito de votar: os presos, os doentes mentais reclusos em manicômios, os sociopatas enviados às casas de correção e as mulheres, independentemente de sua honra, inteligência ou fortuna.

Por toda a Europa, as mulheres lutaram pelo direito de poder votar. Em 1918, as sufragetes conseguiram seu objetivo na Inglaterra. Na Alemanha, essa vitória chegou um ano mais tarde, em 1919. Na França, somente em 1944.

No ano de 1908, a inglesa Emmeline Pethick-Lawrence popularizou três cores como símbolo do movimento feminino: violeta, branco e verde. Sua explicação: “O violeta, como cor dos soberanos, simboliza o sangue real que corre pelas veias de cada mulher que luta pelo direito ao voto, simboliza sua consciência da liberdade e da dignidade. O branco simboliza a honestidade na vida privada e na política. O verde simboliza a esperança de um recomeço.”

Era necessário que fossem três cores, pois desde a Revolução Francesa as flâmulas tricolores simbolizavam todos os movimentos libertários. E principalmente: era preciso que fossem cores que estivessem no armário de toda mulher, que não exigissem aquisições dispendiosas. Precisavam ser cores que funcionassem no dia a dia, e no entanto que fossem inequivocamente cores do movimento feminino, que pudessem ser reconhecidas como tal – e esse efeito não pode ser obtido com uma cor apenas. 

Toda mulher tinha em seu armário uma blusa branca e uma saia comprida de fibra de algodão branca, com rendas e nervuras. Ou então uma saia violeta – cor muito popular na virada do século, especialmente na indumentária de inverno. A cor verde sempre fez parte da indumentária de todos os dias. Durante as manifestações, foram usadas também largas faixas nas cores violeta, branco e verde, que iam desde o ombro até a cintura.

As sufragistas costumavam vestir suas cores também no dia a dia: conjuntos verdes com debruns ou detalhes em violeta; penas de avestruz nas cores violeta e verde espetadas em chapéus brancos; no ponto alto do movimento, passaram a existir também sapatos e bolsas nessas três cores: violeta, branco e verde. Muitos homens deram seu apoio às sufragistas, usando suas cores em pequenas faixas, que atavam em seus chapéus ou gravatas. As sufragistas casavam-se levando em seus buquês violetas e flores brancas.

Hoje em dia, pode parecer ridículo o fato de que um movimento feminista tenha se identificado pela vestimenta, mas, naquele momento, foi o que havia de mais adequado: era a melhor maneira de demonstrar publicamente como eram muitas as mulheres – e não poucos os homens – que apoiavam o movimento.

Por volta de 1970, o violeta voltou a se tornar popular como cor do movimento feminista. Os objetivos – que até hoje não foram alcançados – eram: direito das mulheres ao aborto e a salário equivalente ao dos homens. O símbolo internacional do movimento era o símbolo feminino – o símbolo astrológico do planeta Vênus – com uma mão fechada dentro. Os macacões de jeans na cor lilás, surgidos em 1980, marcaram o fim do que havia sido até então a moda feminista.

A luta pelos direitos da mulher durou cinquenta anos. À diferença das vitórias obtidas nas guerras, a vitória delas foi há muito tempo esquecida. Restou somente um termo na lembrança: “sufragista” – como xingamento.

A cor da homossexualidade

No violeta funde-se o masculino e o feminino. Nenhuma outra cor pode simbolizar melhor a homossexualidade. Quando a homossexualidade era ainda punida e desprezada, as camisas na cor lilás para cavalheiros e os foulards na cor violeta eram sinais discretos de reconhecimento para os “entendidos”.

“The purple hand” – uma mão violeta tornou-se o símbolo da gay liberation, movimento gay norte-americano. Em 1969, os homossexuais se manifestaram diante do edifício do periódico Examiner de São Francisco, que havia publicado artigos contra dos homossexuais. Os funcionários do jornal jogaram tinta violeta pela janela, em cima dos manifestantes, que molharam as palmas de suas mãos com a tinta, imprimindo suas palmas sobre os muros do edifício.

Desde 1980 foi adotada a bandeira do arco-íris como símbolo do movimento gay. Nas love parades (marchas do amor), os homossexuais exibem bandeiras do arco-íris, e todos os ambientes em que trabalham e vivem, colam adesivos com as cores do arco-íris. Qual será a origem desse costume?

Em 1969, no enterro de Judy Garland, famosa estrela dos musicais cinematográficos, alguns homossexuais carregavam a bandeira do arco-íris. Judy Garland havia cantado a canção favorita entre os gays: “Somewhere over the rainbow”, razão pela qual alguns de seus fãs assitiram a seus funerais empunhando essas bandeiras. Porém, foi necessário que se passassem muitos anos antes que o arco-íris se convertesse em símbolo de identidade do movimento gay.

Originalmente, o arco-íris é um símbolo bíblico da união dos homens com Deus. Após o dilúvio a que somente Noé sobreviveu com sua família, Deus prometeu: “Não destruirei pela segunda vez a vida.” Como sinal dessa promessa, imprimiu o arco-íris no céu e declarou: “A cada vez que o arco-íris brilhar entre as nuvens, irei me lembrar da promessa que fiz a vocês e a todos os seres vivos.” O simbolismo bíblico entre os homossexuais era bem conhecido, pois tradicionalmente os embates travados entre os círculos gays e os eclesiásticos são grandes. Para fazer do arco-íris um símbolo independente, no início se propagou a ideia de que o arco-íris deveria ser reproduzido com as cores invertidas – com a faixa violeta em cima. Isso correspondia também à descrição que se fazia àquela época dos homossexuais, que eram chamados de “invertidos”. Assim foi criado um símbolo que passava inadvertido às pessoas que estavam alheias ao movimento, e que adquiriu uma grande importância para os gays, que eram então marginalizados socialmente. Porém, a ideia do arco invertido desapareceu mais uma vez, porque simultaneamente a cor violeta se tornou popular como cor do feminismo. Pesquisas realizadas atualmente com homossexuais alemães (que desconhecem que o violeta era a cor da realeza) mostram que eles interpretam essa cor como a “cor das emancipadas”, “das lésbicas” ou das “mulheres frustradas”. De tal forma que o arco-íris voltou a ser representado como era de costume: o vermelho acima, o violeta embaixo. Principalmente após a popularização mundial do laço contra a Aids, os homossexuais se identificam mais com o vermelho, a cor masculina clássica.

Entretanto, outros grupos adotaram o arco-íris como símbolo; assim as “listras multicoloridas” eleitorais, que integram todas as cores políticas – pois o símbolo de todas as cores deve pertencer a todos.

Referência

Heller, Eva. A psicologia das cores:como as cores afetam a emoção e a razão. 1 ed.  São Paulo:Gustavo Gili. 2013.

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