O poder das cores nas nossas vidas: #branco.

Branco

A cor feminina da inocência. Cor do bem e dos espíritos. Existe 67 tons de branco.

O branco é mesmo uma cor? Ou uma cor primária?

Assim como acontece em relação ao preto, em relação ao branco também sempre se coloca a pergunta: o branco é uma cor? Não – se acaso estivermos falando das cores da luz. Pois no sentido da física, na Teoria da Óptica, o branco é mais do que simplesmente uma cor, ele é a somade todas as cores da luz. Num arco-íris a luz incolor é decomposta em suas partes constitutivas, em luz vermelha, laranja, amarela, verde, azul e violeta. Como cor luminosa o branco não é cor. Em virtude disso, para os impressionistas, que trabalhavam em sintonia com o colorido da luz, o branco era uma “não cor”. E no entanto eles utilizavam cores brancas, pois na pintura o branco não pode ser obtido a partir da mistura de outras cores – ao contrário do que ocorre com o preto. Os impressionistas utilizavam inclusive mais branco do que os pintores de outras épocas, pois as pinturas impressionistas são pintadas sobre um fundo branco, ao passo que seus predecessores usavam fundo marrom ou cinzento.

Quando se fala das cores das coisas, das cores de quaisquer tipos de materiais e substâncias, das cores como substâncias que vinham em tubos, frascos, cadinhos e doses, aí é preciso se perguntar outra vez: o branco é uma cor? Sim – inclusive a mais importante de todas. Entre as cores da luz e as cores dos pintores e dos materiais de pintura jaz a diferença fundamental: é a diferença entre a teoria da óptica e a prática da visão.
Nenhuma outra cor é produzida em quantidades maiores do que o branco. Para todo pintor, em princípio o branco é a cor mais importante, todo pintor tem em sua paleta a cor branca, a maioria inclusive tem nela vários tons de branco. O branco é sempre comprado em tubos maiores. Como coloração de material de pintura, o branco é a quarta cor primária – pois ela não pode ser obtida pela mistura de outras cores.
No que concerne à simbologia das cores: para ela, o branco é realmente, e sem a menor sombra de dúvida, uma cor. O que é branco não é incolor. Vinculamos ao branco sentimentos e propriedades que não atribuímos a nenhuma das outras cores.

O princípio e a ressurreição

O branco é o início. Quando Deus criou o mundo, seu primeiro comando foi: “Faça-se luz!”

Fazendo-se associações com a luz, assim tem início a simbologia do branco. Em italiano se diz: “bianco”, em francês “blanc”, que correspondem ao alemão “blank” (em branco, vazio). Em grego, o branco se chama “leukos”, daí vem o alemão “leuchten” (brilhar, iluminar). Em muitas línguas, “branco” e “preto” são as primeiras palavras para as cores, como diferenciação entre claro e escuro, entre o dia e a noite. Essa é a mais fundamental diferenciação de todas as cores. Contudo, no transcorrer dos séculos, quando essa diferença já havia há tempo se tornado evidente, desenvolveram-se novas designações de cores, resultantes de outras experiências igualmente importantes. Em muitas línguas, o nome de alimentos cunharam o nome de cores: em alemão, “Weiß” (branco) e “Weizen” (trigo) estão entrelaçados; em inglês ocorre o mesmo com “white” e “wheat”, e na Suécia com “vit” e “vete”. “Weißbrot” é pão branco, o pão de trigo; “Weißbier”, a cerveja branca é, do mesmo modo, feita de trigo.

O início do mundo é também o início do mal. Mas em todas as religiões ocorre também um início do bem: a ressurreição, a remissão dos pecados. Branco é a cor da ressurreição. O Cristo ressuscitado aparece pintado em vestes brancas. Todos os ressuscitados aparecem vestindo branco diante de Deus: o “domingo branco” é o domingo após a Páscoa, para as crianças católicas é o domingo da primeira comunhão. A hóstia, que simboliza o Cristo vivo, é branca. As crianças são batizadas com roupas batismais brancas – é o início da vida cristã. Antigamente as jovens iam a bailes de debutantes para iniciar sua vida social. Nas assim chamadas altas rodas esse costume é mantido até hoje – as debutantes sempre trajam vestidos de noite brancos.

Um símbolo do início é o ovo branco. Existe um mito mundialmente propagado, de que o mundo saiu de um ovo. O ovo, como símbolo do início, no cristianismo é também símbolo da ressurreição: Cristo ressuscitou na Páscoa, e por isso nessa data são oferecidos ovos. Em alguns países, no último dia do ano as pessoas comem roscas ou panquecas, que trazem felicidade por serem alimentos feitos só de ingredientes brancos – ovos, farinha e leite. O leite, a primeira nutrição que o homem recebe, é branco. Na história da criação do hinduísmo o mundo consistia de um mar de leite. E existe a regra do jogo de xadrez: as brancas começam!

A cor do bem e da perfeição

Branco é a cor dos deuses: Zeus apareceu para Europa como um touro branco, para Leda ele apareceu como um cisne branco. O Espírito Santo se mostra como uma pomba branca. Cristo é o cordeiro branco. O unicórnio branco é o animal símbolo da Virgem Maria. E os anjos na maioria das vezes são pintados vestindo branco e com asas brancas. Os demônios, ao contrário, têm asas pretas – em sua maioria são asas de morcego. Os animais brancos, quando não são deuses eles mesmos, têm alguma ligação com o divino. Na Índia, o gado branco é a corporificação da Luz. Na China, as garças brancas e a Íbis são pássaros sagrados da imortalidade. Os grandes pássaros brancos são enviados celestes, pássaros alvissareiros; daí surgiu a lenda de que os recém-nascidos seriam trazidos pelas cegonhas.

A cor dos deuses se tornou a cor dos sacerdotes. O branco é, desde a Antiguidade, a cor predominante das vestimentas sacerdotais. Na Igreja Católica, o branco é a cor litúrgica dos mais eminentes festejos. No Natal, na Páscoa, em todas as festas que são datas comemorativas para prestar honrarias a Cristo, a Maria ou a quaisquer outros santos que não sejam mártires (nos dias dos mártires a cor é o vermelho, cor do sangue), os clérigos católicos vestem branco durante a missa. Às vezes, as batinas são tão ricamente bordadas a ouro que o branco mal se vê. Exceção feita a esses serviços brancos prestados a Deus e fora da igreja, somente o Papa traja branco. Na Igreja Católica vale a regra de cores: quanto mais alta a posição hierárquica, mais claras são as vestes. Um padre traja preto, um bispo violeta, um cardeal vermelho, o Papa branco. Branco é a cor de sua categoria.

O branco, como cor proeminente, é usado também por reis e rainhas nas ocasiões mais importantes: na coroação, reis e rainhas trajam branco. A rainha Elisabeth profere sempre seu discurso anual de abertura do parlamento vestida de branco. Antigamente, a pele mais nobre era a do arminho, que é um animal marrom, parecido com a doninha, cuja pelagem no inverno se torna branca, e somente a ponta de sua cauda permanece preta. Somente os reis tinham permissão para usar arminho. Quando o príncipe Charles, em 1969, foi coroado príncipe da Gales, ele usou uma capa guarnecida de arminho – até mesmo a coroa confeccionada para essa ocasião era ornamentada de arminho, com a característica mancha preta.Soberanos democraticamente eleitos também aplicam a simbologia dessa cor: não é por acaso que a residência oficial do presidente americano é chamada de “Casa Branca”.

Também na moda tradicional para cavalheiros o branco é a cor suprema: “white tie” (gravata branca) consta nos convites internacionais para grandes bailes, nos convites franceses “cravate blanche” – pois efetivamente isso significa a exigência de comparecer com gravata branca, algo muito diferente: os cavalheiros devem se apresentar vestidos de fraque, e com fraque sempre se usa gravata branca. Só um garçom usaria uma gravata preta com fraque. Um convidado, ao contrário, só usa gravata preta quando traja smoking. “White tie” impõe também às senhoras o traje obrigatório: vestido longo de noite. Na entrega anual do Prêmio Nobel pode-se ver essa culminância dos trajes de festa. Também o querido e inconvencional Günter Grass usou em 1999, quando lhe foi outorgado o Prêmio Nobel de Literatura, um fraque com sobrecasaca e gravata branca. As senhoras da família real sueca ouviram os discursos, como de costume, em vestidos de baile típicos, com saia rodada. O branco é uma cor absoluta. Quanto mais puro o branco, mais perfeito ele é. Qualquer acréscimo só virá reduzir a perfeição.

Limpo e esterilizado

A limpeza é externa, a pureza vai mais a fundo; ambas estão associadas ao branco, não existem alternativas.

O que precisa ser higiênico é branco. Qualquer mancha de sujeira se torna visível, tornando a limpeza fácil de controlar. Apesar de todas as cores da moda, a maioria usa roupa íntima branca. A vestimenta branca é obrigatória nos lugares em que se produzem produtos alimentícios: cozinheiros, padeiros e açougueiros vestem branco. Em contraposição, os comerciantes de vegetais e de alimentos não processados, ou já embalados, podem usar roupas de cor. Os que cuidam dos doentes precisam se vestir inteiramente de branco. Também a mobília dos hospitais é laqueada de branco. A atmosfera esterilizada dos hospitais é um contexto onde a cor branca sugere associações negativas. Fazemos automaticamente a associação de alguém gravemente enfermo com alguém deitado numa cama forrada de branco. Para tornar a atmosfera hospitalar mais amena e amigável, os quartos são pintados de amarelo-claro e de um suave tom de rosa.

Embora o branco – paredes brancas ou empapeladas na cor branca – seja a cor preferida para interiores, em quartos de hotel ela desagrada. Um aposento branco é acolhedor graças aos toques coloridos de nossos pequenos objetos pessoais. Um ambiente absolutamente branco, tão a gosto dos decoradores, logo será decorado – “arruinado”, na opinião dos designers – com a maior quantidade possível de objetos e adesivos coloridos –iniciativa de quem terá que trabalhar nele, para desse modo quebrar a esterilidade do branco.

A cor da inocência e do sacrifício

O branco é imaculado, isento dos negros pecados; branco é a cor da inocência. Para expulsar bruxas e demônios, os supersticiosos fazem oferenda dos “três presentes brancos”, em geral farinha, leite e ovos.

Nas histórias bíblicas são oferecidos principalmente pequenos animais brancos em sacrifício, para expiar as culpas humanas. O animal mais típico para ser oferecido em sacrifício é o inocente cordeiro branco. Jesus, que se sacrificou pelos pecados da humanidade, é o branco cordeiro de Deus. O cordeiro sacrificado é sempre branco, e o bode expiatório sempre preto. O lírio branco é símbolo da paz, da pureza e da inocência. O lírio branco, também chamado “flor de Nossa Senhora”, simboliza a imaculada concepção de Maria. Não por acaso é um lírio: um botão de lírio tem em sua forma e tamanho uma semelhança bastante realista com um falo. Quando o botão do lírio se abre, assemelha-se a um trompete, e segundo crenças antigas Maria teria engravidado pelas vias auditivas, quando ela ouviu a palavra divina. Quando a sexualidade é pecado, o branco é a cor da inocência.

O branco como cor de luto

O branco como cor destituída de cor – é nesse sentido que o branco é a cor do luto. O branco do luto nunca é um branco radiante, nunca em tecidos brilhantes. Quem está de luto e veste branco, veste roupas opacas. Assim como o uso de roupas pretas, o luto branco também imprime a renúncia ao cultivo da imagem por parte de quem o usa. A vestimenta de luto branca pertence à ideia religiosa da reencarnação, que não encara a morte como a despedida final do mundo. Na Ásia, onde essa crença se encontra em casa, o branco é a cor tradicional do luto.

Antigamente, também na Europa o branco estava difundido como cor de luto. Em muitas regiões, as mulheres usavam nos funerais longos panos brancos, que lhes cobriam a cabeça e o tronco. Rainhas e princesas se enlutavam trajando branco. Seu status não permitiria que usassem preto, como o comum dos mortais. Maria também, como mãe enlutada de Deus, é representada num manto branco.

A cor dos mortos, dos espíritos e dos fantasmas

Os mortos são vestidos de branco, para que vistam branco quando ressuscitarem. Pela velha tradição, branco é a cor das flores e dos círios para os mortos. Nos rostos dos mortos faltam as cores da vida – em linguagem poética dá-se a isso o nome de “Verblichene” – desvanecidos. Envoltos em suas mortalhas vagam sem descanso as almas amaldiçoadas, que não encontram paz no além. Certas dinastias principescas têm seus fantasmas particulares: entre os von Hohenzollern assombra uma “mulher branca”, uma antepassada de quem se diz ter assassinado seu marido e seu filho, e que agora anuncia a morte de outros pecadores da família.

Em algumas regiões durante a noite, pelos campos, vaga um mulher branca. É um demônio feminino da fertilidade, e caso ela se encontre com um casal de namorados locais, ela os “abençoa” – a mulher fica grávida.

O branco na política

O maior simbolismo político do branco é como cor da capitulação. Quem mostra a bandeira branca não quer mais – ou não pode mais – lutar. No dia 29 de abril de 1945, a população de Munique foi solicitada pelo rádio a dependurar lençóis de cama nas janelas para esperar em paz pelos soldados americanos, sem oferecer resistência. Esses lençóis foram as bandeiras brancas da rendição. No dia 30 de abril Hitler se suicidou. No dia 8 de maio de 1945, pendiam por toda a Alemanha lençóis nas janelas: esse foi o dia da capitulação incondicional, finalmente a Segunda Guerra Mundial havia ficado para trás.

Como cor de bandeira, o branco, a cor divina, quase sempre foi a cor da realeza, e como cor dos movimentos políticos, a cor da monarquia absolutista. O primeiro movimento cujos adeptos se autodenominaram “os brancos” surgiu em 1814 na França, após a queda de Napoleão, quando os Bourbons se propuseram a recuperar o poder. Lutaram sob uma bandeira branca com a flor-de-lis e propagaram o branco como cor da monarquia – de origem supostamente divina. Ao “terror vermelho” da Revolução sucedeu o “terror branco” da Restauração.

Na Revolução Russa, entre 1918 e 1920 batalharam entre si os “vermelhos” contra os “brancos” – os comunistas contra os adeptos do tsarismo despótico.

Eclodiu na Itália, em 1871, uma nova briga acerca da questão da divisão de poderes entre o rei e o papa. A “fração branca”, como sempre, apoiou o rei, a “porção negra” representava a religião. Assim, excepcionalmente, o papa esteve, dessa vez, do lado negro. 

A cor do design minimalista

Preto e branco são as cores preferidas dos designers técnicos, pois na qualidade de “não cores” elas não desviam a atenção da função dos aparelhos. Para os técnicos as cores são mera decoração, pois a técnica funciona também sem cores.

O estilo minimalista do desenho técnico conceitua a estética como uma libertação de todos os ornamentos, de todas as cores. Os arquitetos minimalistas criaram edifícios inteiramente brancos, por dentro e por fora, desviando toda atenção para a condução das linhas arquitetônicas – mas frequentemente dando menos atenção às necessidades dos moradores e visitantes dessas construções.

O design pós-modernista trouxe de volta as cores e a ornamentação. Cores e ornamentos são agora expressão de vitalidade e sagacidade. Contudo, o branco permanece como cor principal também no design da pós-modernidade – tendo se tornado agora a cor de fundo, sobre a qual as demais cores ganham maior destaque na expressão de sua beleza.

E, no entanto, todas as cores ganham maior luminosidade sobre o preto do que sobre o branco, razão pela qual os designers preferem apresentar seus projetos sobre um fundo preto → Fig. 58. Mas para todas as grandes superfícies, assim como para cores de interiores, o preto não é apropriado, pois com sua força ele não dá destaque às demais cores, e sim as abate.

Todo estilo que se torne aceito em amplos círculos nasce de algum tipo de necessidade verdadeira. Somente então é possível se perceber um estilo não como alguma coisa imposta, mas como algo contemporâneo, que tem sua razão de ser. O branco não é uma cor da moda – é uma cor moderna.

O perfume mais vendido do mundo, o Chanel n° 5, é vendido desde 1920 numa embalagem branca escrita em preto, e seu único adorno são os cantos pretos da embalagem branca → Fig. 59. Essa simplicidade transmite a impressão de que o Chanel n° 5 é o perfume dos perfumes, totalmente atemporal. O que ele parece ser também.

Símbolos de status: colarinhos e coletes brancos

A cor da camisa que um homem usava no trabalho, antigamente, servia como indicador de seu status profissional. Operários vestiam camisas azuis ou cinzentas. Numa camisa branca podia-se reconhecer os de status mais elevado, aqueles que não precisavam se sujar para fazer seu trabalho. A cor da gola da camisa, nos Estados Unidos e na Inglaterra, tornou-se um conceito de classes sociais: os operários são os trabalhadores de “colarinho azul”, cujo trabalho envolve o uso de força física; os de “colarinho branco” são os profissionais assalariados, que ocupam cargos burocráticos ou administrativos. Nos primeiros anos da IBM, os profissionais assalariados se comprometiam, por contrato, a usar sempre uma camisa branca. Somente a partir de 1970 as camisas masculinas coloridas começaram a ser aceitas no círculo dos funcionários assalariados da área burocrático-administrativa; e somente a partir dos anos 1990 essa aceitação se alastrou para a gerência e cargos diretivos.

As camisas brancas, impecáveis, de uso diário, eram um símbolo de status, uma vez que não existiam máquinas de lavar nem tecidos de fácil manuseio. Antigamente, as camisas tinham colarinhos e punhos destacáveis, que se prendiam e soltavam por botões, de tal modo que era desnecessário lavar e passar a camisa toda. As práticas donas de casa recobriam todas as marcas de sujeira com giz.

Para que o branco permanecesse branco, as roupas eram alvejadas colocando-as sobre a grama. A grama alveja, pois desprende oxigênio; quando expostas ao sol e ao ar, as cores desbotam; é nisso que consiste o “branqueamento”. Hoje, o peróxido de hidrogênio é utilizado como alvejante.
Os tecidos sintéticos são ainda mais brancos; porém todas as fibras sintéticas são, em seu estado original, cinza. Elas são tingidas com tintas brancas brilhantes. Entretanto, conforme vão sendo lavados, esses tecidos sintéticos vão amarelando. Não há como alvejá-los. Os alvejantes iriam danificar os corantes brancos. Foram desenvolvidos detergentes especiais para os tecidos sintéticos, que contêm partículas fluorescentes, tornando o branco mais brilhante: são os “agentes clareadores”.
Ainda hoje, a camisa elegante é a camisa branca. E quanto mais alta a posição profissional, mais conservador é o traje. Daí o conceito de “crime de colarinho branco” para as ações fraudulentas dentro das comunidades empresariais, para crimes “limpos”, em que não há derramamento de sangue. Trata-se, na maior parte, de dinheiro não declarado, que percorre canais obscuros em “caixas negras”; mas quando a ação é atingida pela luz da notoriedade, o dinheiro está “lavado” e os envolvidos, em sua maioria, estão “limpos”.
O proverbial “colete branco” é símbolo de comportamento impecável – pelo menos pela impossibilidade de se comprovar o contrário. Aqui, o simbólico conta com uma tradição ainda mais antiga: em Roma, aqueles que concorriam a algum cargo político tinham que se dispor a responder às perguntas que o público lhes fazia; nessas apresentações, todos os concorrentes deveriam vestir uma toga branca. Em latim, um branco radiante é chamado de “candidus”. Os concorrentes a cargos públicos são chamados, hoje em dia, de “candidatos”. 

Que traje veste a noiva?

O vestido de casamento branco, com véu e grinalda, nada tem de tradicional. A moda da vestimenta branca para as noivas só surgiu no século XIX.

O que as noivas usavam antes? Elas usavam seu melhor vestido, não havia uma moda para noivas. Contudo, existiam as noivas ricas que se casavam de branco, como Maria de Médici, que se casou com Henrique IV em 1600. Cronistas descreveram seu vestido como sendo de seda branca, adornada com ouro e pedras preciosas, além de uma cauda dourada. Mas não foi Maria de Médici quem lançou a moda do casamento com a noiva usando branco – outros cronistas relataram que ela teria se casado vestida de dourado, já que não se podia mais ver a seda branca por debaixo daquele ouro todo. Apesar de todo esse esplendor, esses vestidos não eram verdadeiramente vestidos de casamento. Pois havia anos que não existia uma cor determinada para os vestidos de casamento, nenhum estilo predeterminado, não existia nem mesmo a ideia de um vestido de casamento.

Na peça Romeu e Julieta, de Shakespeare (1597), a condessa Júlia Capuleto deveria se casar, conforme o desejo de seus pais, com o conde Paris. Júlia tinha então catorze anos, que era, em sua época, uma idade apropriada para se casar. Estava tudo preparado, fazia tempo, para uma grande festa; já estavam contratados os vinte melhores cozinheiros de país… porém, na noite anterior à boda, a mãe de Julieta pergunta que vestido irá trajar a noiva. Julieta examina com sua criada os baús e escolhe um vestido, que não é descrito. A questão está resolvida. A condessa Júlia não vestiria nenhuma roupa nova – isso não fazia parte dos costumes daquela época.

Em As núpcias dos Arnolfini,9 pintado em 1434 por Jan van Eyck, pode se ver como as bodas eram celebradas naquele tempo. O quadro não é apenas famoso como ponto alto da arte, mas também porque é uma das primeiras telas a mostrar, em vez de santos, pessoas verdadeiras numa situação real. Também o colorido não é mais simbólico, e sim realístico. A senhora Arnolfini casou-se vestida com um vestido pomposo, de um verde luminoso. O casal fizera seus votos em casa, o que era bem comum naquele tempo, bastava uma testemunha. A testemunha desse casamento foi o pintor, conforme consta numa inscrição do quadro, que não era para servir apenas como uma recordação da boda – era, mais propriamente, uma ata do casamento. O casamento era então algo muito semelhante a um negócio, um negócio que só podia ser importante para quem tinha dinheiro; nele contavam os direitos hereditários, refletidos no quadro com claro simbolismo: o noivo dá à noiva não a mão direita, mas a esquerda – e os espectadores do quadro ficavam assim sabendo que se tratava de um “casamento de mão esquerda”, o que significava que a noiva renunciava a seus direitos hereditários, supõe-se que em favor dos filhos de um casamento anterior do senhor Arnolfini, bem mais velho que ela. A muito jovem noiva (Giovanna Cenami) estava visivelmente grávida, o que não significava à época nenhum desdouro; ao contrário, o fato excluía o risco de um casamento estéril; além disso, o casamento virginal não era ainda um ideal. Surpreendentemente, os historiadores da arte não se cansam de afirmar que a noiva não estava grávida, mas que apenas seguia a moda da época, segundo a qual o ideal de beleza era encarnado pelas mulheres cujo ventre estivesse dilatado. Porém há muitos dados que comprovam a tese da gravidez: a noiva apoia uma mão sobre seu ventre, gesto típico das mulheres grávidas, que na pintura também simboliza a gravidez. E principalmente: qualquer observador da época poderia reconhecer que a noiva não era virgem, pois o fato era revelado por seu penteado. As mulheres casadas à época usavam os cabelos recolhidos e, em locais públicos, sempre recobertos por uma espécie de véu, amarrado como se fosse um gorro. Nas pinturas religiosas, ao contrário, reconhece-se sempre a virgem por seus cabelos soltos, que era o próprio para elas. A senhora Arnolfini, contudo, cobre seus cabelos, com um penteado especial, próprio das mulheres casadas: recolhido para a direita e para a esquerda, como que formando dois chifres – os dois chifres do diabo, que deveriam afugentar os ciúmes das esposas. Acontece que os observadores de hoje percebem uma noiva grávida como inadequada e acreditam que naqueles tempos, quando a moral era ainda mais estrita, teria sido absolutamente impossível se elaborar a pintura de uma noiva grávida. A história resolve a questão: quando essa tela foi pintada, o casamento religioso, realizado na igreja, não existia ainda – uma realidade difícil de se representar hoje em dia.
“O casamento é um negócio mundano”, declarou Lutero, querendo com isso dizer que casamento e Igreja nada tinham a ver um com o outro. Na Igreja Católica existem sete sacramentos, ou ações, que infundem a graça divina, e o matrimônio é um deles – mas diferentemente das ações do batismo, da comunhão, da eucaristia ou ordenação sacerdotal, o matrimônio não é outorgado pela Igreja; os contraentes simplesmente se comprometem a levar uma vida que agrade a Deus (na Igreja Evangélica, apenas o batismo e a eucaristia são sacramentos). Como a Igreja não realizava casamentos, era indiferente o fato de a noiva estar grávida ou não.
A influência da Igreja nas bodas começou com o concílio de Trento (1545-1563). Foi então que se decidiu que todo casamento deveria se realizar diante de um pároco. Mas a cerimônia não acontecia no interior da  reconhecer que a noiva não era virgem, pois o fato era revelado por seu penteado. As mulheres casadas à época usavam os cabelos recolhidos e, em locais públicos, sempre recobertos por uma espécie de véu, amarrado como se fosse um gorro. Nas pinturas religiosas, ao contrário, reconhece-se sempre a virgem por seus cabelos soltos, que era o próprio para elas. A senhora Arnolfini, contudo, cobre seus cabelos, com um penteado especial, próprio das mulheres casadas: recolhido para a direita e para a esquerda, como que formando dois chifres – os dois chifres do diabo, que deveriam afugentar os ciúmes das esposas. Acontece que os observadores de hoje percebem uma noiva grávida como inadequada e acreditam que naqueles tempos, quando a moral era ainda mais estrita, teria sido absolutamente impossível se elaborar a pintura de uma noiva grávida. A história resolve a questão: quando essa tela foi pintada, o casamento religioso, realizado na igreja, não existia ainda – uma realidade difícil de se representar hoje em dia.
“O casamento é um negócio mundano”, declarou Lutero, querendo com isso dizer que casamento e Igreja nada tinham a ver um com o outro. Na Igreja Católica existem sete sacramentos, ou ações, que infundem a graça divina, e o matrimônio é um deles – mas diferentemente das ações do batismo, da comunhão, da eucaristia ou ordenação sacerdotal, o matrimônio não é outorgado pela Igreja; os contraentes simplesmente se comprometem a levar uma vida que agrade a Deus (na Igreja Evangélica, apenas o batismo e a eucaristia são sacramentos). Como a Igreja não realizava casamentos, era indiferente o fato de a noiva estar grávida ou não.
A influência da Igreja nas bodas começou com o concílio de Trento (1545-1563). Foi então que se decidiu que todo casamento deveria se realizar diante de um pároco. Mas a cerimônia não acontecia no interior da fiação em seu país, que lutava contra a concorrência francesa. O desejo da rainha acertou o alvo, seu véu de noiva causou furor. Dali em diante, a rainha Vitória passou a usar sempre uma pequena touca, que dava a aparência de ser um tecido que ela amarrava em sua cabeça.
Quando, em 1853, o imperador Napoleão III se casou, sua noiva, Eugênia, também usou um pequeno véu branco. A elegantíssima Eugênia escolheu para seu véu de noiva um material fora do comum: veludo branco.
Naqueles tempos, as noivas reais exerciam uma influência muito mais forte sobre a moda do que o fazem hoje. Porém, a nova preferência pelo traje de noiva branco também era expressão do espírito da época. Em 1808, Jacquard colocou no mercado o primeiro tear, o que barateou muito os tecidos. As máquinas de costura existem desde 1830. A partir de então, muitas mulheres podiam, com um vestido de noiva branco, realizar seu sonho de ser princesa, pelo menos por um dia.
Porém, a maioria das mulheres são mais práticas do que se imagina. Em velhas fotos de casamento, pode-se ver que, até cerca de 1950, a maioria das noivas manteve o hábito mais prático dos vestidos de seda preta, que posteriormente poderiam vir a ser usados em inúmeras ocasiões – sobre eles, para se casar, elas usavam um véu branco. Embora os vestidos de noiva venham se tornando cada vez mais acessíveis, muitas noivas, até os dias de hoje, abrem mão do sonho de se casar vestidas de branco.

Regras para cores e vestidos, para a noiva e os convidados

Um vestido branco espetacular, em tecido brilhante, bordado ou enfeitado com rendas, de cintura justa e saia longa até os pés, e sobre ele um véu – esse é o vestido de noiva clássico, tradicional. O branco puro simboliza a virgindade da noiva, ainda que hoje em dia sejam poucas as mulheres que deem importância ao fato de parecer terem chegado virgens ao casamento. Por isso, algumas delas renunciam ao branco puro e preferem o creme. A princesa Diana usou um vestido creme. Seu casamento se realizou em 1981, e a imprensa considerou aquela cor como seu reconhecimento público de não haver chegado virgem ao casamento. Esses matizes já não causam efeito algum na moral pública, muito menos em casos de noivas que não pertencem à realeza.

Porém, ainda existem leis não escritas, pelas quais algumas noivas devam escolher uma determinada cor e não outra. Por exemplo, muito poucas mulheres separadas voltam a usar branco e véu ao contraírem um outro casamento. E para muitos, uma noiva visivelmente grávida vestindo branco é, mesmo se estiver se casando pela primeira vez, uma imagem que vai contra os bons costumes.

Muitos são da opinião de que um vestido de noiva requintado, com véu, só se justifica em casamentos religiosos, pois é somente o ambiente da igreja que é capaz de legitimar a pompa da vestimenta.

Em virtude de que a moda para noivas, como nenhuma outra, é dirigida para mulheres jovens, quando a mulher já atingiu uma certa idade, em que a experiência é mais importante do que as expectativas, o traje branco de noiva faz com que pareçam mais merecedoras de compaixão do que comovedoramente inexperientes. Essa limitação é aplicável apenas ao vestido branco pomposo, pois um simples vestido branco se adapta a qualquer idade, inclusive a uma octogenária que esteja se casando pela quinta vez.
Quem não desejar ou achar que não deve se casar de branco pode, contudo, usar um vestido de noiva pomposo – por exemplo, num apaixonado tom de vermelho, ou num celestial tom de azul, ou estampado de rosas, ou dourado, e sobre ele usar um véu da mesma cor. Um véu colorido não está impregnado de simbologia cristã, será apenas um acessório da moda, que pode ser usado por qualquer mulher. Em todos os desfiles da alta costura, costuma-se mostrar ao final um pomposo vestido de noiva, e todos os designers gostam de apresentar vestidos de noiva em colorações criativas.
Existe apenas uma regra que toda noiva deve observar: ela deverá estar mais luxuosamente vestida do que seus convidados!
Para todas as outras festividades vale o contrário: o anfitrião e a anfitriã devem estar mais simplesmente vestidos do que seus convidados. Principalmente quando irão receber em suas casas. Se se disser a seus convidados para virem em trajes de lazer, e no entanto os anfitriões se vestirem com trajes de festa, não deverão estranhar que seus convidados não se sintam à vontade e que se retirem assim que possível. Se uma anfitriã desejar usar numa festa um vestido longo de noite, ela deverá avisar a seus convidados que todos deverão comparecer em vestidos longos de festa e smokings. E os convidados irão se orientar por esse comunicado – caso não desejem se sentir desconfortáveis em meio às demais pessoas que ali estarão.

Num casamento, tudo estará direcionado para a noiva. Hoje em dia, muitas noivas querem que seu traje permaneça em segredo até o dia do casamento. Contudo, o noivo precisa saber que grau de luxo terá o vestido que ela irá usar. Um terno cinza ou azul-escuro com gravata só se harmonizará com um vestido simples ou um vestido branco curto. Porém, ao lado de uma noiva luxuosamente vestida, o noivo deverá usar um traje preto de tecido ligeiramente brilhante – e em nenhum caso usar smoking, que é um traje que só se usa à noite.
Tanto na cerimônia religiosa como na civil, os convidados devem se vestir com trajes elegantes para o dia. Trajes de festa, brilhantes, não serão mal recebidos, mas também não são os mais adquados. Os cavalheiros deverão usar uma roupa para o dia, com uma gravata a seu gosto. Se os noivos querem outro tipo de roupa para seus convidados, devem fazer com que saibam com antecedência. O traje informal jamais é adequado para casamento. Quem for da opinião de que um casamento não é mais importante do que uma compra no supermercado, de preferência não deverá frequentar casamentos.
Uma particularidade dos casamentos mais elegantes é que na cerimônia o noivo, e apenas o noivo, vestirá um fraque cinza claro com gravata, o chamado morning suit – terno para o dia. Os demais cavalheiros usarão trajes escuros. Olhando com atenção para fotografias de casamentos da nobreza, a muitos parecerá que o noivo talvez esteja vestido com excessiva simplicidade em seu traje cinzento – porém esquecem que o morning suit é, na realidade, um fraque.
Na maioria dos casamentos, na parte da tarde haverá uma festa. A noiva deverá então deixar de lado todo seu segredo e anunciar se irá se apresentar com traje longo ou curto. Se for curto, nenhuma das convidadas poderá usar traje longo, para não roubar a atenção. Se se espera que a noiva irá vestir um traje simples, nenhuma das convidadas poderá usar nada de muito chamativo. A roupa da noiva, nessa ocasião, deverá ser a mais formosa de todas.
Em 1998, quando a princesa Gabriela de Leinigen contraiu segundas núpcias com Aga Khan, encomendou do estilista parisiense Christian Lacroix um vestido de noiva e um vestido de festa. Porém não informou que esse vestido seria para seu casamento, e sim para comparecer ao casamento de uma amiga. Como era seu segundo casamento, não quis saber de vestido branco, porém entre seus convidados ricos e nobres, tinha que ser ela a vestir o traje mais suntuoso, razão pela qual pediu a Lacroix luxuosos bordados e rendas. Porém o modista, que de nada suspeitava, lhe disse que isso seria inadequado, pois dessa maneira ela iria chamar mais atenção do que a noiva.
Antes de tudo, as convidadas para um casamento devem ter em vista que existe para elas uma cor proibida – o branco. Mesmo se a noiva for se casar vestida de vermelho ou de azul, como convidada de um casamento jamais se usa branco. Caso contrário se passa a impressão de querer parecer a noiva. Naturalmente que se pode usar uma blusa branca ou um vestido em padronagem branca. Porém cabe à noiva – e a ela somente – o privilégio de poder usar um traje – ou um chapéu – inteiramente branco.

Referência

Heller, Eva. A psicologia das cores:como as cores afetam a emoção e a razão. 1 ed.  São Paulo:Gustavo Gili. 2013.

O poder das cores nas nossas vidas. #preto

 

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