O poder das cores nas nossas vidas. #preto

Preto

A cor do poder, da violência e da morte. A cor predileta dos designers e dos jovens. Cor da negação e da elegância. Existe 50 tons de preto.

O preto é uma cor?

Essa é uma das perguntas preferidas, se o preto é uma cor. Alguns estão totalmente convencidos de que o preto não é uma cor – porém não sabem dizer por quê. Contudo, ainda que o neguem, essas pessoas sem sombra de dúvida veem o preto e lhe conferem uma simbologia que não pode ser comparada à de nenhuma outra cor. O impressionismo não reconheceu o preto como cor. Essa tendência pictórica, que teve início na França em 1870, foi mais popular do que todas as outras que a ela se seguiram; ainda para os críticos atuais, os quadros impressionistas são o suprassumo da beleza.

O impressionismo tem um só tema: a cor. Tanto fazia o que estivesse representado, tanto fazia o que o quadro quisesse dizer; por isso nos quadros se veem muitas flores bonitas, mulheres bonitas, lindas paisagens – tudo isso servindo para produzir efeito pelas cores utilizadas. No tempo em que o impressionismo se transformou em corrente artística, o mundo se encontrava fascinado pela fotografia. Chegaram então a temer o fim da pintura: fotografias eram muito mais baratas do que pinturas – apesar de que, naquele tempo, não existiam ainda fotografias coloridas – mas as fotos em preto e branco podiam ser facilmente pintadas. Muitos pintores que viviam de pintar retratos ficaram sem trabalho. Antes disso, os artistas bem formados tinham sempre boas oportunidades de trabalho; foi somente com o advento da fotografia que surgiu a ideia da pintura como arte não lucrativa.

O impressionismo reagiu à fotografia. Os pintores passaram a fazer o que as fotografias não podiam: os pintores não reproduziam simplesmente as cores das coisas, eles mostravam os efeitos mais puros e intensos das cores. Na pintura impressionista, a luz branca do dia é decomposta, como através de um prisma, nas cores do arco-íris, e com uma multiplicidade de manchas de diversas cores se conseguia transmitir a impressão de um quadro inundado de luz. A soma de todas as cores do arco-íris é branca. O preto é a ausência de todas as cores. Desse modo, o preto foi declarado uma “não cor”. Pintar com tinta preta era uma prática censurada; até mesmo as cores escuras deveriam ser obtidas com o azul, o vermelho e o amarelo combinados; a escuridão não deveria ser representada por uma única cor, ela deveria ser, antes, um efeito visual.

A teoria era convincente; a práxis, entretanto, nem sempre era assim. Auguste Renoir, precursor do impressionismo, mais tarde foi questionado: “Quer dizer então que a única inovação do impressionismo foi a abolição do preto, essa ‘não cor’?” Renoir respondeu: “O preto uma ‘não cor’? De onde vocês tiraram isso? O preto é a rainha das cores. Eu sempre abominei o azul da Prússia. Eu bem que tentei substituir o preto por uma mistura de vermelho e azul – mas para isso eu utilizei o azul cobalto ou azul ultramarino; e, no final das contas, acabei voltando para o preto marfim.” Renoir chegou a chamar o preto de “rainha das cores”.

Van Gogh, artista que superou a falta de conteúdo do impressionismo, e que foi um dos primeiros expressionistas, teve o mesmo problema com a cor preta. Seu irmão, o único a acreditar em sua pintura, escreveu-lhe dizendo que ele não deveria utilizar o preto. Van Gogh lhe respondeu: “Não, o preto e o branco têm a sua razão e a sua importância, e quem os deixa de lado não se sai bem.” Para ele, o preto das cores das tintas não era suficientemente escuro; ele costumava produzir um preto mais intenso misturando-o com índigo, terra Siena, azul da Prússia e Siena queimado. “Quando ouço as pessoas  dizerem que, na natureza, o preto não existe, respondo que, se for assim, nas cores também não existe o preto.” E ele perguntava a seu irmão: “Será que você mesmo entende, realmente, o que quer dizer quando fala em ‘não se utilizar o preto’? Sabe o que quer dizer com isso?” Estas perguntas deveriam ser feitas a todos, ele dizia, que alegam que o preto não é uma cor. À pergunta teórica: “O preto é uma cor?”, resta como resposta teórica: o preto é uma cor sem cor.

A cor da dor. Regras para os trajes de luto.

Os israelitas lidam com seu luto espalhando cinzas sobre a cabeça e vestindo roupas escuras, em forma de saco. É disseminado o costume do descuido exterior como sinal de luto. Esta atitude supõe a renúncia aos trajes de cores alegres e aos adornos. Em algumas culturas, os homens raspavam a barba e o cabelo, em sinal de luto; em outras, ao contrário, deixavam que crescessem as unhas e os cabelos. Por detrás da diversidade de costumes, a ideia é a mesma: o luto pelos mortos faz com que nos esqueçamos da própria vida. Porém, também aqui, atua o pensamento mágico, “o igual pelo igual”, para curar ou afastar: muitos adotavam o preto para afastar os demônios negros, para não serem apanhados por eles.

Na simbologia cromática cristã, o preto é a tristeza pela morte terrena; o cinza simboliza o juízo final e o branco é a cor da ressurreição. Por isso a cor dos trajes dos que estão enlutados é o preto; no entanto, a cor dos mortos é o branco, pois eles devem ressuscitar. A morte é frequentemente retratada pelo ceifador cruel, que se veste com um manto preto, caso tenha sido enviado dos infernos para buscar um pecador; mas que, caso tenha sido enviado por Deus, estará vestido de branco.

Em muitas culturas, o branco também é usado como cor de luto. Nesse sentido, o branco é considerado não como cor, mas como a ausência de todas as cores. A vestimenta branca de luto é feita com tecido não tingido, simples, jamais brilhante ou luminoso. Assim como o preto, o branco quer significar a renúncia à própria vaidade. Se é o preto ou o branco a cor do luto, isso naturalmente é determinado também pelas ideias religiosas. Os primeiros cristãos, acreditando na vida após a morte, usavam branco nos funerais, porque, para eles, a morte era a festa da ressurreição. Também quando, como no budismo, a morte é encarada como caminho para a perfeição, o preto nunca é a cor adequada para o luto, mas sim o branco.

No Antigo Egito, a cor do luto era o amarelo, pois o amarelo simbolizava a luz eterna. O luto é branco sobretudo entre os povos para quem o preto é símbolo da fecundidade: se a fecundidade é preta, a morte tem que ser branca. Porém, há uma regra internacional: quanto mais o pensamento religioso desaparece, mais o preto fica oficializado como cor do luto.

E aqueles que determinam as regras sociais também têm o poder de alterá-las: rainhas de séculos passados trajavam branco para o luto, para se diferenciarem dos enlutados comuns. A rainha Vitória trajava violeta, a antiga cor dos soberanos. O príncipe Charles, no enterro da princesa Diana, foi o único a trajar um terno azul – por quê, continua sendo seu segredo. Na Europa, atualmente vigem as seguintes regras para os funerais: somente os parentes mais próximos e os amigos mais chegados aparecem totalmente vestidos de preto. Todos os demais trajam azul escuro, cinza escuro ou outras cores discretas. Em geral não se usam tecidos brilhantes, mesmo que sejam pretos; nada de vestidos muito decotados, sofisticação de enfeites e joias exageradas. Porém, também estão vetados trajes de passeio, como jeans e jaquetas de couro, nem que sejam pretos. Ternos pretos serão complementados com gravatas, também pretas, ou de cores discretas. Mais importante que a cor é que a vestimenta cause uma impressão solene.

A cor da negação: o preto transforma amor em ódio

O preto transforma todos os significados positivos de todas as cores cromáticas em seu oposto negativo. O que soa tão teórico é uma constatação elementar prática: o preto faz a diferença entre o bem e o mal, porque ele faz também a diferença entre o dia e a noite.

O vermelho é o amor; mas vermelho com preto caracteriza o seu oposto, o ódio. A potencialização do ódio é brutalidade, selvageria, características que pertencem ao acorde cromático preto-vermelho-marrom – logicamente, aqui o preto é ainda mais intenso. Sempre que o preto estiver num acorde cromático em companhia do vermelho, do amarelo ou do verde, um sentimento negativo, uma característica negativa será visualizada nele: amarelo-vermelho são as cores da alegria de viver – mas se a esse acorde for acrescentado o preto, obteremos o acorde do egoísmo.

A reversão de todos os valores, essa é a ação mais forte do preto.

A cor da sujeira e do mau

Um “colarinho preto” é um colarinho sujo; o mesmo vale para pés, mãos e orelhas sujas. Há pessoas que invejam tudo nos outros (“cada porcaria”, segundo uma metáfora alemã), até mesmo a sujeira que têm debaixo das unhas. Num sentido figurado, “preto” significa mau e ruim. Aquele que “denigre” a imagem de alguém, está falando mal dele. O crime de chantagem, em inglês, se chama blackmail. Uma bête noire, em francês, significa um animal preto, o “bicho-papão”. As asas pretas dos morcegos são características do diabo, de acordo com uma antiga simbologia. Existem também, entre as pessoas, as “ovelhas negras”. Caracterizar alguma coisa como “negra” é o que de pior pode ser dito sobre ela.

Os que sempre enxergam “tudo negro” são pessimistas. Quem só vive nervoso e mal-humorado tem o coração negro, ou tem sempre uma “nuvem negra” sobre a cabeça. A Ilíada diz sobre Agamênon: “Seu negro coração está repleto de ira selvagem.” Um “olhar negro”, na Inglaterra, é um mau-olhado. Os que riem ao verem o outro fracassar, os que consideram como engraçados os acidentes, as doenças e a morte, desses dizemos que têm um “humor negro”.

Um símbolo notório de desaprovação, na Inglaterra e nos Estados Unidos, é uma bola preta, a “black ball”. Os sócios dos clubes decidem secretamente se o candidato será aceito; cada sócio irá colocar numa urna uma bola branca ou uma bola preta: a branca significa aceitação; a preta, rejeição. Basta uma só bola preta para que a pessoa seja rejeitada. Em virtude disso, a “bola preta” é um símbolo capaz de destruir o sonho de uma vida.

O preto vira moda no mundo inteiro

As cores desapareceram definitivamente quando a Espanha passou a ser potência mundial. Pois uma potência mundial dita a moda no mundo e, na corte espanhola, estabeleceu-se a soberania de uma só cor, que predominou por todo um século: o preto.

Em 1480, a Inquisição se estabeleceu na Espanha. Teve início um século de religiosidade sombria. E preto era a cor que combinava ali. Era o tempo de Carlos I (1500-1558) e de seu filho Felipe II (1527-1598). Carlos I foi um soberano devotado; Felipe II, um fanático religioso. 

Carlos I foi rei da Espanha e, como Carlos V, tornou-se imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e soberano da Borgonha, da Áustria e dos Países Baixos. Em seu reinado, o sol nunca se punha; ele possuía colônias ao redor do mundo inteiro. A ascensão ao poderio mundial foi obtido graças às viagens marítimas. As primeiras colônias espanholas na América se chamavam “Nova Espanha”, “Nova Castilha” e “Nova Granada”. Depois que Vasco da Gama descobriu, em 1498, o caminho para as Índias, logo toda a costa africana que se avistava nessa rota tornou-se possessão espanhola. De 1519 até 1521, o português Fernão de Magalhães, a serviço do rei da Espanha, deu a volta ao mundo, conquistando, além disso, um conjunto de ilhas que, em honra ao então príncipe herdeiro Felipe, foram batizadas de Filipinas. Os espanhóis estavam em toda parte. Agora, para um piedoso cristão, não havia explicação para submeter outros povos. O engenhoso álibi para fazê-lo era uma nova interpretação do mundo, que parecia estar amaldiçoado por Deus. Os gentios eram, naturalmente, os culpados. Em nome de Deus, os povos nativos da América, da África e das Índias foram tratados como escravos – nova fonte de renda para a nobreza espanhola. E, naturalmente, judeus e protestantes eram considerados, da mesma forma, culpados. Assim eles foram assassinados também, em nome de Deus, e seu dinheiro repartido entre a Igreja e a Coroa.

Apesar de toda essa santidade, esse foi um tempo de disputas entre o rei e a Igreja. Não se tratava de uma disputa acerca de ideias religiosas, o que estava sendo disputado ali era o poder secular. Os papas apoiaram sempre os partidos que lhes prometiam mais vantagens. O papa Alexandre VI (1492-1503), da casa dos Bórgia, degradou completamente o papado. Ele era sequioso por poder e por posses, autoindulgente e cruel; teve filhos com diversas mulheres e queria que seus filhos herdassem os bens da Igreja. “Um papa manchado por vícios de todos os tipos”, avaliaram os contemporâneos. O papado perdeu prestígio e poder.

O rei Carlos I era mais papista que o próprio Papa. Vestia-se de preto, como um monge. Seus dias se iniciavam com orações junto a seu confessor; em seguida, assistia à missa com toda sua corte; durante as refeições, eram lidos livros piedosos; as refeições terminavam sempre com um sermão. Quando abdicou, em 1556, retirou-se para um palácio cujas paredes eram forradas de preto, junto ao mosteiro de São Jerônimo, perto da vila de Cuacos de Yuste, província de Cáceres. Seu filho, Felipe II, foi seu sucessor. Ele também encarava a si mesmo, e não ao papado, como o centro da fé. Felipe construiu para si uma residência apartada do mundo, o Escorial. Era um palácio, um mosteiro e um sepulcro. O monastério do Escorial foi dedicado a São Lourenço, martirizado em Roma no suplício da grelha – formato em que a construção do Escorial se inspirou. O próprio Felipe mandou queimar dezenas de milhares na fogueira. Quando os Países Baixos, protestantes, dominados por espanhóis, bradaram pela supressão da Inquisição e pela liberdade da fé religiosa, o rei Felipe, em nome da pureza de sua fé, mandou para a fogueira centenas de milhares de protestantes, pois o número dos seguidores de Lutero não parava de crescer.

A moda preta do reinado mundial da Espanha foi recatada como nenhuma outra, antes ou depois: os trajes cobriam até as orelhas – o requisito típico da moda espanhola era o rufo, um tipo de gola para adornar o pescoço, feito de linho plissado ou ondulado, em forma de cone. Em 1540, esses rufos chegaram à moda; inicialmente apenas roçavam a barba; em seguida, porém, já tornavam impossíveis quaisquer movimentos com a cabeça, pois as rendas engomadas picavam o queixo, pelo lado cutucavam as orelhas e na parte de trás chegavam até metade do crânio. Para poder usar a gola, os homens tinham que desistir da barba – o que trouxe à moda o bigode e a barba curta. Essas golas se harmonizavam com a atmosfera intriguista da Inquisição: obrigavam a pessoa a mostrar ininterruptamente o rosto e, consequentemente, a controlar quaisquer expressões faciais.

Até o início do século XVII, os rufos foram se tornando cada vez maiores, chegando a se assemelhar a rodas de moinho. A inacessibilidade não era apenas uma impressão visual, porém um fato costumado: para conseguirem se alimentar precisavam de colheres e garfos extremamente longos. As mulheres usavam corseletes apertados; não, contudo, para acentuar suas formas; ao contrário, o corpo era negado: as mulheres pareciam ter o peito tão achatado como os homens, e andavam tão cingidas como eles.

Apesar da proibição de cores, os nobres exibiam sua riqueza. Seus trajes eram de seda e suas capas, de lã de merino. As ovelhas merinas pertenciam tradicionalmente à alta nobreza espanhola. Sobre as vestimentas pretas, não eram poucas as joias: as roupas de gala eram enfeitadas com pérolas e pedras preciosas. Homens e mulheres usavam tantas joias quantas pudessem carregar. Em 1525, o rei da França, Francisco I, mandou fabricar 13.600 botões de ouro para seu traje de veludo preto. A moda hispânica sofreu sua derrocada quando a Espanha perdeu seu domínio mundial. Em 1588, a armada espanhola foi vencida. Os Países Baixos, antes oprimidos pela Espanha, tornaram-se a nova potência mundial; passaram, então, a determinar a moda. As roupas se afrouxaram; as rígidas golas se tornaram suaves, de renda. Porém as cores não retornaram, pois nos Países Baixos havia triunfado a Reforma – e a cor dos protestantes era também o preto.

As noivas trajavam preto

Nas fotografias dos casamentos que aconteceram por volta de 1900, quase todas as noivas usam um vestido preto que lhes vai até os pés; somente o véu era branco. Quando a noiva dispunha de meios, o vestido podia ser de seda preta. Esses vestidos podiam ser reaproveitados depois, para serem usados em festas e celebrações. As noivas mais modestas trajavam tecidos pretos opacos, que poderiam ser usados mais tarde para ir à igreja ou a enterros e, de modo geral, em todas as ocasiões em que a seda brilhante não fosse adequada.

O traje de noiva preto opunha-se ao branco não somente pela cor. O traje branco só se usa uma vez na vida e semelhante luxo era, naquela época, inimaginável. Quando um vestido saía de moda, ou já não se ajustava ao corpo, ele era guardado, ou reformado; fazia-se o que fosse possível para aproveitá-lo ao máximo. Até 1960, as revistas femininas traziam inúmeras sugestões de como reformar roupas usadas.

O preto também era a cor psicologicamente mais adequada para os vestidos de noiva. O casamento, naquele tempo, era um negócio, do mesmo tipo de uma fusão comercial. Quem não tinha nada para herdar não tinha como se casar. Em muitas regiões, até o século XX, licenças para casamento só eram concedidas se se comprovasse possuir renda suficiente para o sustento da família. O casamento por amor era um ideal romântico, que só se tornou realmente popular quando a dissolução dos matrimônios se tornou possível. Em lugar dos sentimentos cálidos, o que dominava então era a frieza da razão. E a razão dizia que o preto se adequava bem às noivas.

Por que a roupa preta é sempre preferida?

Um vestido preto, assim como um terno preto, produzem um efeito delimitativo, conferem importância a quem os veste. Quem se veste de preto não tem necessidade de se tornar interessante pelas cores que usa; para isso, basta sua personalidade.

A artista suíça Pipilotti Rist, que tematizou em sua pintura a transformação do self por meio de diferentes trajes, declarou: “Quem se veste com cores alegres passa uma impressão de superficial. Quem se veste de preto está demonstrando que não necessita de adornos, que tem valores internos.” O maior oposto psicológico à roupa preta são os vestidos cor-de-rosa. A cor da pele transmite a impressão de nudez e desamparo. Agatha Christie descreveu, em suas memórias, como todas as jovens lutaram para obter a permissão de usar um vestido preto em seus primeiros bailes – porém, todas as mães faziam com que usassem rosa. Todas as mães queriam ver suas filhas como moças boazinhas, e toda filha desejava aparecer como “femme fatale”. Quem se veste de preto já é adulto.

Os jovens, quando escolhem suas cores prediletas, pensam principalmente em suas roupas. Quando a pessoa ainda não pode definir sua posição social pela profissão e pelas posses, o símbolo de sua individualidade é a roupa. A roupa preta vem se tornando a mais apreciada, principalmente entre os jovens; até mesmo as crianças hoje em dia se vestem de preto. Há vários motivos para que seja assim:

1. Preto é a cor da individualidade.

A roupa preta concentra a impressão que uma pessoa produz em seu rosto, que é o centro da individualidade. A partir do protestantismo, com Martinho Lutero, a roupa preta se propagou pela Europa como símbolo da responsabilidade individual, dando daí um grande salto até a mais moderna filosofia da individualidade: o existencialismo de Jean-Paul Sartre. Porém, os objetivos são os mesmos, e os meios da moda se repetem. O existencialismo foi, por volta de 1950, uma moda e uma filosofia, em dois sentidos: a visão de mundo se deixou reproduzir também na maneira de se vestir – os existencialistas se vestiam de preto. O filósofo Jean-Paul Sartre sempre se vestiu de preto. A cantora Juliette Greco, que incorporou o existencialismo em atitudes mais populares, ficou famosa por seus olhos delineados em preto, suas calças pretas de veludo cotelê e seu pulôver preto de gola alta, que lhe chegava até o queixo.

Como cor que delimita, a roupa preta permaneceu popular entre todos os grupos que queriam estar acima da norma, acima da massa, que não queriam se adaptar aos valores vigentes. Os beatniks só se apresentavam com jaquetas pretas. Vieram então os roqueiros, depois os punks – todos dando preferência às roupas pretas. Quem protesta, nega – o preto é a cor da negação.

2. O preto é a cor que menos depende da moda.

O segundo motivo para a crescente preferência pela roupa preta: foi também por volta de 1950 que se iniciou um processo que alterou a moda de maneira fundamental: com o advento das fibras sintéticas, das cores sintéticas e da produção industrial em massa, as roupas foram se tornando cada vez mais baratas. Uma mulher comum possuía, agora, muito mais roupa do que as mulheres mais ricas dos séculos anteriores. O setor da moda soube se aproveitar dessa oportunidade; seus desenhistas passaram a lançar a cada primavera, verão, outono e inverno, novos 

Como cor que delimita, a roupa preta permaneceu popular entre todos os grupos que queriam estar acima da norma, acima da massa, que não queriam se adaptar aos valores vigentes. Os beatniks só se apresentavam com jaquetas pretas. Vieram então os roqueiros, depois os punks – todos dando preferência às roupas pretas. Quem protesta, nega – o preto é a cor da negação.

3. O preto combina melhor com o rosto dos jovens

Numa sociedade cujo ideal é a juventude eterna, e cuja moda apresenta modelos cada vez mais jovens, o preto é a cor que exibe a juventude com maior nitidez – porque é também a cor que dá mais realce à velhice. Uma camisa preta ou um pulôver preto realça, nos idosos, qualquer flacidez na área do queixo. Como o preto não reflete nenhuma luz, cada ruga aparecerá realçada. Quanto mais idade alguém tiver, mais velho parecerá ao usar preto. O preto irá revelar quão jovem ou quão velha uma pessoa realmente é.

O maravilhoso negro africano. Maquiagem para a pele escura

Na África, no Continente Negro, naturalmente que o preto tem outro significado. Aqui o preto é a mais bela cor. “Black is beautiful”, é esse o seu lema. Na bandeira preto-ouro-vermelha de Uganda, o preto significa o povo. Sobre um fundo preto aparece o Sol, nas bandeiras de Antígua e Malawi, simbolizando o princípio de uma nova era dos Estados independentes. O preto representa a nova autoconsciência do povo da África. O símbolo africano da liberdade é uma estrela preta de cinco pontas → Fig. 45.

O movimento Black Is Beautiful, que teve início nos anos sessenta, produziu seus efeitos também na moda. Os negros deixaram de seguir a moda “branca”, passaram a seguir suas próprias tradições: o look “etno” se tornou popular.
E, pela primeira vez, a indústria de cosméticos passou a oferecer artigos de maquiagem para a pele negra. Em contraste à maquiagem opaca, para mulheres de pele clara, ofereciam uma maquiagem transparente e brilhante. Na pele clara, os contornos do rosto são marcados pelas sombras; na pele escura, são marcados pelas zonas de luz. A pele escura não deveria mais ser opaca, pois sem contornos um rosto parece uma máscara achatada. Começaram a aparecer as modelos de pele escura nos desfiles internacionais de moda. Estando na moda, o preto passou a ser a cor preferida de todos os negros.
A recém-conquistada autoestima das mulheres negras fez com que o impensável passasse a ser levado em conta, o que se deixa perceber bem na seguinte anedota: Uma mulher negra, tendo morrido, obteve permissão do céu para retornar à terra; então, todos lhe perguntam: “Como é Deus?”, e ela responde: “É uma mulher negra.”

A mais objetiva das cores. A cor predileta dos designers

“Form follows function” – a forma segue a função: esse é o lema do desenho clássico-moderno. Significa a renúncia a enfeites, a padrões supérfluos, a cores supérfluas. Tudo ganha um colorido “neutro”: preto, branco ou cinza. Com a renúncia ao colorido, gera-se a exigência pela praticidade e pela funcionalidade – essas sim, as verdadeiras virtudes do design.Nos objetos de luxo, a renúncia às cores permite que o luxo se manifeste por si só. O preto é a cor com que mais se evidencia a renúncia ao colorido, a mais contundente renúncia à ostentação – e por isso o preto é a mais nobre das cores.

Esteve durante muito tempo em voga entre os designers de moda a utilização de objetos comuns como produtos de design, bastando para isso laqueá-los de preto. Em cima das escrivaninhas pretas dos designers, todos os objetos eram pretos: desde o grampeador até os apontadores de lápis. Tudo que quisesse ganhar a aparência de ser tecnicamente moderno se tornou preto: televisores, aparelhos de som, câmeras fotográficas e relógios de pulso. As cores deveriam desaparecer, para que a técnica passasse ao primeiro plano. Quanto menos nova uma tecnologia, quanto mais comum um objeto, com mais cores ele passará a ser apresentado.

E isso sempre foi assim. A primeira cor a existir para os automóveis foi, naturalmente, o preto. Henry Ford renúncia à ostentação – e por isso o preto é a mais nobre das cores.
Esteve durante muito tempo em voga entre os designers de moda a utilização de objetos comuns como produtos de design, bastando para isso laqueá-los de preto. Em cima das escrivaninhas pretas dos designers, todos os objetos eram pretos: desde o grampeador até os apontadores de lápis.
Tudo que quisesse ganhar a aparência de ser tecnicamente moderno se tornou preto: televisores, aparelhos de som, câmeras fotográficas e relógios de pulso. As cores deveriam desaparecer, para que a técnica passasse ao primeiro plano. Quanto menos nova uma tecnologia, quanto mais comum um objeto, com mais cores ele passará a ser apresentado.
E isso sempre foi assim. A primeira cor a existir para os automóveis foi, naturalmente, o preto. Henry Ford disse, na ocasião, que qualquer cor iria bem para os automóveis; entretanto, o famoso Ford T, durante décadas, só existiu na cor preta.

Como regra geral vale: preto-e-branco é a combinação de cores mais unívoca, inequívoca, relacionada inclusive à verdade. No xadrez, assim como em todos os jogos cujo resultado depende da capacidade do jogador, e não da sorte, as cores que se usam são o preto e o branco. Quando se estabelece uma relação funcional entre o branco e o preto – como a que existe entre o papel branco e as letras pretas nele impressas – o preto, que em outros casos é cor negativa, adquire um novo valor. Nesse contexto, o preto é melhor inclusive do que o vermelho: números vermelhos significam perdas, enquanto os pretos significam ganhos.
A “black box” foi, originalmente, a caixa preta do mágico, dentro da qual aconteciam estranhas transformações. Em seguida, a caixa-preta passou a ser um conceito na tecnologia de comunicações e em outros sistemas conhecidos, armazenando os dados desconhecidos executados pelo sistema, como os gravadores de voo nos aviões, que registram todas as instruções que foram realmente passadas. A caixa-preta tornou-se um símbolo de fatos objetivos, mesmo quando não se sabe de que maneira os fatos aconteceram.

O que se tem atestado, “preto sobre o branco”, vale muito mais do que aquilo que foi simplesmente dito, pois apenas aquilo que se tem por escrito tem valor legal. “Aí está, preto no branco” é um argumento muito usado – o que está impresso parece incorporar um teor muito maior de verdade. E porque a verdade não pode ser aumentada, textos impressos em letras coloridas parecem menos dignos de credibilidade.
O efeito psicológico daquilo que está impresso, preto no branco, é tão forte que as pessoas chegam a acreditar mais no que está impresso do que em suas próprias experiências.
Uma fotografia em preto e branco parece ter maior valor documental do que uma foto em cores. O diretor Sergei Eisenstein renunciou à cor em seus filmes, pois acreditava que, “renunciando-se à atração das cores, a forma e o conteúdo receberiam uma maior atenção por parte do espectador”. Ele tinha convicção disso. Em um mundo colorido, o preto e o branco são as mais objetivas cores da realidade.

 

 Referência

Heller, Eva. A psicologia das cores:como as cores afetam a emoção e a razão. 1 ed.  São Paulo:Gustavo Gili. 2013.

 

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