O poder das cores nas nossas vidas. #Verde

Verde

A cor da fertilidade, da esperança e da burguesia. Existem 100 tons de verde.

A natureza e o natural.

Pela perspectiva da civilização, o verde aparece como cor simbólica da natureza. Só quem está na cidade pode ir “para o verde”, descrever a floresta como “pulmões verdes”; só nas cidades existem “zonas”, “áreas” ou “espaços verdes”, que são governados pelos departamentos do meio ambiente. O “verde” enumerado do golfe também é de natureza artificial. Costumamos dizer de alguém cujo hobby é a jardinagem que ele tem “o polegar verde”. 

Existem muitos fenômenos da civilização que podem ganhar uma pincelada “natural” através do predicado “verde”. Uma “cosmética verde” dá a entender o emprego de ingredientes naturais, e uma “medicina verde” é aquela que pretende curar somente com substâncias naturais. Já aconteceu até de uma empresa de produtos químicos anunciar que a química praticada ali era “verde”. O “Partido Verde” só pode surgir numa sociedade altamente industrializada, quando a natureza se tornou uma questão menor, transformada em “meio ambiente”. A escolha do nome foi inteligente: “verde”, como a cor da natureza, a cor que resumia os objetivos do partido; como cor em si, simbolizava sua posição independente entre os dois blocos políticos, os vermelhos e os pretos. A organização ecologista Greenpeace também escolheu a palavra “verde” – e os próprios ecologistas são chamados de “verdes”. O efeito naturalista do verde não depende de nenhum tom especial de verde, e sim das cores que a ele são combinadas: com azul e branco – as cores do céu – e marrom – cor da terra – o verde se mostra absolutamente natural.

A cor da vida e da saúde

A cor verde é o símbolo da vida em seu mais amplo sentido – não só com relação à humanidade, mas a tudo que cresce. “Verde” é o oposto de murcho, de seco, de morto. A simbologia é tão internacional quanto a experiência: um inglês que se sente em plena forma costuma dizer que está “in the green”.

A saúde é verde, pois o verde é sinônimo de hortaliças, as “verduras”. Nesse sentido, um “verde” significa também um vegetariano. Nos “mercados verdes” alemães (nossos “hortifrútis” e congêneres) são vendidos os produtos vegetais que são verdes ou ligados ao verde. Um “caldo verde” é um caldo que leva verduras. Combinado a nomes de outros alimentos, o adjetivo “verde” significa a adição de verduras e ervas – massa verde, molho verde. Aqui muitas invenções culinárias são possíveis: “caviar verde” pode constar no cardápio requintado de restaurantes, “pão verde”, “chocolate verde” etc…

O trevo de quatro folhas, símbolo da sorte, é comum nos cartões de felicitações para o Ano Novo; nesse dia é costume presentear com um vasinho de trevos de quatro folhas – é uma forma de se desejar que tudo de melhor floresça. O verde é a cor da vida vegetal, o vermelho a cor da vida animal. O acorde verde-vermelho simboliza uma alta vitalidade. O verde faz parte também do acorde da felicidade: ouro-vermelho-verde – o ouro representa a riqueza, o vermelho o amor e o verde a saúde.

A cor da primavera, dos negócios que florescem e da fertilidade

Germinar, brotar, verdejar. O verde é a cor da primavera. A primavera é a estação da fertilidade. Na China, o jade, a pedra verde ornamental, é a mais bela de todas as pedras; com ela são decorados móveis, instrumentos e armas. O jade é, além disso, um símbolo muito especial de fertilidade: segundo a simbologia chinesa, o jade é o esperma do dragão celeste, símbolo da maior força vital masculina, a celestial.

A rã é também um símbolo de fertilidade. Ela é verde, põe numerosos ovos e assemelha-se a um embrião humano. Por isso, o rei dos sapos da lenda deseja a todo custo ir para a cama com a princesa.

A imaturidade e os jovens

O processo da maturação na natureza pode compreender vários estágios: pode ir do verde ao amarelo até chegar ao vermelho, no caso das cerejas; do verde ao vermelho até chegar ao azul e ao preto, nas ameixas e nos mirtilos; do verde ao marrom, nas nozes. Seja uma espiga de milho ou uma pinha, primeiro elas são verdes; brotos verdes podem florescer em qualquer cor. Porém, não existe nenhuma planta, nenhuma flor que percorra o caminho inverso – o estágio da imaturidade é sempre verde.

Essa experiência é tão difundida que pode ser transposta a outras esferas. O verde é a cor da juventude. Um “jovem verde” é alguém cuja fisionomia é ainda imatura como uma “fruta verde”, imaturo feito vinho não fermentado (em alemão se diz “vinho verde”). Ele ainda está “verde atrás das orelhas”, diz-se jocosamente por lá. Há também a descrição “bico verde”, que faz referência à pele esverdeada apresentada pelos pássaros jovens. A pele ao redor dos chifres dos carneiros jovens também é esverdeada, razão pela qual existe a expressão greenhorn na Inglaterra. “Quem se pinta de verde é devorado pelas cabras”, diz um velho ditado alemão, querendo significar que quem se faz de bobo acaba sendo julgado como tal. E quando um inglês lhe perguntar: “Você está vendo algum verde em meus olhos?” (“Do you see any green in my eyes?”), ele está querendo dizer: “Está me tomando por bobo?”.

Verde é esperança

A ideia de a esperança ser verde sobrevive porque está aparentada com a experiência da primavera. As analogias idiomáticas tornam isso visível: a esperança germina como a semente na primavera. A primavera significa renovação após um tempo de escassez. Também a esperança é um sentimento de que os tempos de privação estão ficando para trás. “Quanto mais duros os tempos, mais verde é a esperança”, diz o ditado. “Meu coração fica verde”, quer dizer que a pessoa já pode novamente ter esperanças.

Renovação, no sentido religioso, significa livrar-se do pecado, significa ressurreição. Os que participam do jejum de quarenta dias depois da quarta-feira de cinzas ficam verdes outra vez. No último dia do jejum, a “quinta-feira verde” (em alemão Gründonnerstag), os que ainda seguem o antigo costume comem verduras, especialmente espinafre.

A cor sagrada do Islã

A cor favorita do profeta Maomé era o verde. Maomé trajava manto e turbante verdes.  A relíquia mais valiosa do Islã é o sandshak-i-sherif, a bandeira santa, que é verde e bordada a ouro. É a bandeira que o profeta carregou na guerra e que terminou com a conquista de Meca. A bandeira verde tem um significado extraordinário: cada maometano tem o dever de segui-la na guerra contra os infiéis. Assim, o islamismo se tornou uma religião mundial.

Verde é a cor dos profetas, a cor do Islã, a cor da Liga Árabe. Todos os Estados-membros têm o verde em suas bandeiras. No enterro do rei Hussein, da Jordânia, que era tido por descendente direto do profeta, foi colocado sobre o túmulo um baldaquim verde, como símbolo da fé islâmica. O fato de Maomé ter declarado o verde sua cor favorita não é um acaso, um produto de seu gosto individual. Maomé, que difundia as revelações divinas tal como estão escritas no Corão, profetizava aos que levassem uma vida que agradasse a Deus, como recompensa, uma eternidade de satisfações sensoriais, um paraíso para os apreciadores de paisagens que encantam, com prados verdejantes, florestas em que se podia estar à sombra, oásis eternos. O verde seria a cor reinante no Paraíso – uma ideia que, sem dúvida, enchia de entusiasmo um povo que vivia no deserto. 

Verde masculino e verde feminino

A simbologia é dependente da cultura, pois culturas diferentes significam diferentes modos de vida. Perguntar “qual é o significado do verde?” significa, ao mesmo tempo, perguntar sobre as condições em que se vive.

Em meio ao deserto a natureza verde é grandiosa, o verde passa a significar o mesmo que bem-estar material e espiritual. Como cor sagrada do Irã, como cor da vida eterna, o verde é compreensivelmente masculino.

Para os antigos egípcios, o verde também era uma cor masculina. Aliás, o deus Osíris tinha a pele verde. Ele é o deus da vida – e, simultaneamente, o deus da morte. Nas religiões que creem no renascimento eterno, isso não é uma contradição. Ele era chamado também de “O grande verde”. Os animais verdes eram sagrados também. Foram encontrados nas pirâmides milhares de crocodilos mumificados. Por isso, adquire duplo significado o fato de o Deus do Antigo Testamento ter enviado ao Egito uma praga de gafanhotos. O Egito deveria sucumbir a seus animais verdes.

Porém, no Norte da Europa, onde o verde existe em abundância, a experiência ensinou que a exuberância verde não é garantia de riqueza, nem sequer de sobrevivência. Onde o verde é cotidiano, ele aparece também como cor de alguns demônios. E como cor cotidiana e também como cor negativa ele é, no pensamento tradicional, uma cor preferencialmente feminina: com a serpente verde e com Eva, segundo os ensinamentos dos cristãos, o mal entrou para o mundo. O verde é feminino quando ele é a cor da natureza profanada.

O verde venenoso

Verde é a cor de tudo que é venenoso. Surpreendentemente verde também é a cor da saúde, para significar isso o violeta não serve. Quando se pensa em “venenoso” pensa-se logo no “verde veneno”, a conexão que coloquialmente se faz entre o que é verde e o que é venenoso, e que só existe na Alemanha. Com isso fica demonstrado que até mesmo um único clichê idiomático pode determinar um efeito cromático. “Verde veneno” (Giftgrün) é um tradicional conceito alemão. Ninguém conhece um “vermelho veneno”, embora vermelho seja a cor do perigo. Ninguém nunca ouviu falar em “azul veneno”, em que pese o fato de não nos alimentarmos com nada que seja dessa cor. Se nos oferecessem macarrão tingido de azul ou chantilly azul, com certeza acharíamos esses itens repulsivos.

O verde se tornou a cor do veneno em função da tinta usada para pinturas artísticas. Desde a Antiguidade se conhecia um verde luminoso, que era obtido a partir de chapas de cobre que, tratadas com vinagre, produziam azinhavre. Esse azinhavre era raspado e misturado com cola ou gema de ovo, ou ainda com óleo, como aglutinantes – desse modo era produzida a tinta. Esse é o verde intenso que vemos nos telhados de cobre, que é também chamado de “verde cobre”, e que tem efeito tóxico.

O verde funcional

Os semáforos desempenham um papel importante na vida moderna; consequentemente, essa simbologia foi universalizada. Também nos edifícios cartazes verdes sinalizam acesso livre, saídas de emergência são iluminadas de verde. Em geral os caminhos para socorro são demarcados com setas brancas sobre um fundo verde. A simbologia dos semáforos foi adotada no dia a dia. Quando alguém “dá sinal verde a alguém”, simboliza que está apoiando a intenção da outra. Os que estão passando por “uma onda verde”, quer dizer que estão vivendo sucesso após sucesso na vida. “Isso está em área verde”, costuma-se dizer, quando alguma coisa está em ordem.

O green card norte-americano dá ao turista “sinal verde” para visitar os Estados Unidos, é a permissão para permanência por tempo ilimitado e também para o trabalho. A cor “verde padrão” é um verde-escuro, cinzento. É tido como a mais agradável das cores para ser observada por períodos longos, por isso é adotado como cor padrão para as lousas escolares. Muitas máquinas também são laqueadas em verde padrão. A padronização da cor garante que peças de substituição e novas aquisições serão incorporadas a ela sem problemas. Garrafas de vinho são, em sua maioria, verdes. O motivo: o verde-garrafa é a espécie mais em conta de vidro. O vidro âmbar fornece melhor proteção, por isso ele é obrigatório para vidros de remédio.

Os uniformes dos cirurgiões são também, por uma questão de funcionalidade, verdes. Além da ação calmante que confere aos olhos do cirurgião, os uniformes verdes têm a vantagem de que o sangue, caindo sobre um tecido verde, fica marrom, assustando menos. Aqui o verde atua também como cor complementária ao vermelho: se alguém se concentrar em alguma coisa vermelha, como um ferimento, e depois olhar para uma superfície branca, verá um quadro fantasma esverdeado que poderá exercer um efeito irritante. Porém, ao olhar para o verde dos uniformes cirúrgicos, considerará a formação fantasma ilusória.

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Marcas que utilizam a cor verde

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Deus Osíris

 

Referência

Heller, Eva. A psicologia das cores:como as cores afetam a emoção e a razão. 1 ed.  São Paulo:Gustavo Gili. 2013.

O poder das cores nas nossas vidas. # Amarelo

O poder das cores nas nossas vidas. #vermelho

O poder das cores nas nossas vidas. # Azul

 

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