O poder das cores nas nossas vidas. # Amarelo

Amarelo

A cor mais contraditória, da recreação, do entendimento e da traição. A cor do otimismo e do ciúme. Existem 115 tons de amarelo.

A mais ambígua das cores

As pessoas mais velhas apreciam mais o amarelo do que os jovens – todas as cores luminosas vão sendo mais apreciadas com a idade. A cor amarela é a mais clara dentre todas as cores. Ao amarelo pertencem a vivência e o simbolismo do sol, da luz e do ouro.  Pertence também à vivência e ao simbolismo do amarelo o fato de que nenhuma outra cor é tão instável quanto ela – uma pitada de vermelho transforma o amarelo em laranja, uma pitada de azul e ela se torna verde, um tantinho de preto e obtemos uma cor suja e opaca. Mais do que todas as outras cores, ela depende das cores combinadas a ela. Perto do branco, o amarelo parece radiosamente claro, perto do preto inconvenientemente berrante. O amarelo é a cor do otimismo – mas também da irritação, da hipocrisia e da inveja. Ele é a cor da iluminação, do entendimento; mas é também a cor dos desprezados e dos traidores.

A cor da recreação, da jovialidade e do otimismo

A experiência mais elementar que temos do amarelo é o sol. Esta experiência é compartilhada por todos como efeito simbólico: como cor do sol, o amarelo age de modo alegre e revigorante. Os otimistas têm uma disposição ensolarada, o amarelo é sua cor. O amarelo irradia, ri, é a principal cor da disposição amistosa. O amarelo é lúdico. O amarelo irradia como um sorriso.

O amarelo bom do ouro. Loiras e homens bonitos

O amarelo vira ouro, quando se pensa no que é belo, valioso. Também os cabelos loiros, no lirismo, se tornam dourados. E porque em geral, em nossa simbologia, o amarelo é tão negativo, foi inventado um termo para o cabelo amarelo quando ele é especialmente bonito: loiro. Houve um tempo em que essa expressão era usada também para os homens de cabelo amarelo, “derBlondin”, o loiro. Era ofensivo chamar uma loira de “mulher de cabelo amarelo”. “Goldie”, na América, é um apreciado apelido para as loiras. Na Inglaterra, existe até mesmo uma palavra que tanto quer dizer “bonita” quanto “loira”: fair.  

Os antigos gregos representavam seus deuses como loiros. Até os mortais, na Antiguidade, desejavam ser loiros. Eles untavam seus cabelos com um unguento descolorante, fabricado em Atenas, e se punham ao sol por horas até que o cabelo aloirasse.Hélio, Apolo, Sol: os deuses solares eram coroados com a cor amarela. É o amarelo que é ouro sem ser metal – ouro imaterial, extraterreno. Onde desabrochassem flores amarelas, dizia a lenda, ali um deus estava enterrado.

A cor da inveja, do ciúme e de todo tipo de hipocrisia

Para o amarelo, são predominantes as associações negativas. O amarelo é a cor de tudo que nos causa raiva. A inveja é amarela – a inveja é a raiva pela posse alheia. Amarelo é o ciúme – raiva pela existência de outros. Também a cobiça é amarela.  

No simbolismo das cores, a todo pecado, a toda característica negativa corresponde o preto. O amarelo puro, cor da iluminação, quando combinado com o preto, torna-se a cor simbólica do impuro. O amarelo da inteligência se turva, transformando-se na cor da falta de discernimento. Hugo van der Goes pintou a serpente que seduziu Adão e Eva como um réptil amarelo-esverdeado, com cabeça humana. Além disso, os insetos, os menos apreciados dentre todos os seres vivos, não têm o sangue vermelho, e sim amarelo.

No idioma inglês, “yellow” significa também “covarde”. Uma risada vacilante, os franceses a chamam de “um riso amarelo”. Johannes Itten escreve sobre esse efeito do amarelo: “Como só existe uma verdade, da mesma forma existe um só amarelo. Uma verdade turva é uma verdade adoecida, é uma inverdade. É essa a impressão que o amarelo turvo passa, de inveja, traição, falsidade, dúvida, desconfiança e insanidade.”

Goethe também chamou o amarelo pálido de “cor dos cornos” – um “corno”, como sabemos, é um marido traído.

O amarelo chamativo, berrante, como cor de advertência

O amarelo chega como um raio. Por isso o amarelo é a cor da espontaneidade, da impulsividade. O amarelo é mais penetrante que o vermelho. Ao lado do dourado, simboliza o brilho falso, impertinente, da ostentação. 

Por seu efeito ideal de visibilidade à distância e seu caráter penetrante quando visto de perto, o amarelo foi eleito a cor internacional das advertências. Preto sobre amarelo são os sinais de advertência para materiais venenosos, explosivos e radioativos

Listras amarelas e pretas são marcas fronteiriças, que advertem os motoristas para passagens rebaixadas ou estreitas, e advertem os operários para cantos ou ângulos perigosos em máquinas. No futebol fazem-se as advertências com “cartão amarelo”; esse é um termo que já entrou para o vocabulário de uso comum da língua, quando alguém “sinaliza alguém com o cartão amarelo”, ela o está ameaçando com feias consequências. Se uma bandeira amarela for erguida num navio, sinaliza a eclosão de uma epidemia, ninguém deve deixar o navio e ninguém deve ser admitido a bordo. Na linguagem das bandeiras, a amarela significa a letra “Q”, de quarentena. Se fosse hasteada uma bandeira amarela numa aldeia da Idade Média, significava que ali havia eclodido a peste.

Manchas amarelas para prostitutas, mães solteiras e judeus

Na Idade Média o amarelo tornou-se a cor dos proscritos. Uma instrução de Hamburgo, de 1445, obrigava as prostitutas a colocarem um pano amarelo na cabeça; uma lei de Leipzig, de 1506, obrigava-as a vestir um manto amarelo; em Merano, na Itália, seus sapatos deveriam ter cordões amarelos. Também as mães solteiras deviam tornar pública essa desonra, usando alguma coisa amarela; em Friburgo, na Brisgóvia, eram obrigadas a vestir um gorro amarelo. No pescoço dos hereges, na hora de sua execução, era colocada uma cruz amarela. Os que tinham dívidas deveriam costurar um círculo amarelo em suas roupas. Essas peças de vestuário e marcas amarelas eram as “manchas da desonra”. Os judeus eram os mais discriminados. Desde o século XII eles eram obrigados a usar chapéus amarelos. Esses chapéus eram altos e em forma de cones, às vezes curvados como um chifre. Tinham também que pregar argolas amarelas às suas roupas. Essas argolas às vezes eram de latão, mas na maioria dos casos eram de tecido e deviam ser costuradas à roupa. Martinho Lutero escreveu que “os judeus e os mendigos são reconhecidos por suas argolas amarelas”.

Em virtude de os cristãos imputarem a cor amarela aos judeus, existe um profundo sentimento discriminatório: tanto na tradição cristã quanto na judaica, a cor amarela é proibida na liturgia. Na Igreja Católica essa tradição foi estabelecida no século XIX; as vestimentas dos sacerdotes poderiam ser bordadas em ouro, mas jamais em amarelo. No século XX os judeus, mais uma vez, precisaram usar o amarelo como cor da discriminação. Os nazistas obrigaram os judeus a usarem sempre uma estrela de Davi amarela presa às suas roupas – para a religião judaica a estrela de Davi é azul. O amarelo foi escolhido como a cor dos proscritos porque aqueles que tivessem que usá-la não tinham como escondê-la; até mesmo na escuridão ela pode ser vista.

E o amarelo jamais foi uma cor apreciada para as vestimentas. O açafrão era demasiadamente caro para que se pudesse tingir roupas com ele. E todos os outros corantes amarelos não produziam uma cor firme e luminosa.  Hoje em dia o amarelo só é visto com frequência nos trajes informais de verão. O amarelo só combina com o brilho do Sol. Na moda elegante, o amarelo aparece sempre como ouro têxtil, em sedas e cetins resplendorosos. Vestidos amarelos de tecidos nobres, porém opacos, são exceção. O amarelo em geral é tão pouco apreciado como cor de vestimenta porque a pele amarela não é apreciada pelos europeus. Ao contrário do que na Ásia, onde o amarelo é tão apreciado, pois vestimentas amarelas dão destaque ao tom amarelado do pele. O amarelo é considerado, pelo mundo da moda, como uma cor que não é verdadeiramente apreciada; serve apenas, sempre, para um flerte momentâneo – é uma loucura passageira.

O amarelo na política: a cor do traidor

Como cor política, o amarelo desempenha entre nós um papel sempre negativo. Ainda não existiu nunca um partido que se autodenominasse “os amarelos”. Pois, num sentido político, o amarelo é a cor dos traidores.  O amarelo tem velha tradição como cor dos traidores: Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, na maioria das vezes é representado em amarelo pálido nas telas.

Na Espanha do século XVI, nos tempos da Inquisição, os hereges, ou seja, todos aqueles que não obedeciam até renunciar a si próprios as prescrições da Igreja Católica, compareciam ante os tribunais da Inquisição vestindo um capote amarelo. Na Alemanha, na França e na Espanha existiam “sindicatos amarelos”, mas somente seus adversários os chamavam assim; eles se autodenominavam “comunidades operárias”, defendiam interesses comuns de patrões e empregados. Para os sindicatos operários que se autodenominavam “sindicatos vermelhos”, os membros das comunidades operárias eram furadores de greve e traidores. Assim, passaram a ser chamados de “amarelos”. Para os europeus, o amarelo também é sinônimo de Ásia. A rejeição europeia ao amarelo liga-se ainda, frequentemente, à rejeição aos estrangeiros. A sempre evocada ameaça da Ásia à Europa gerou o slogan político “o perigo amarelo”.

O amarelo masculino e imperial da China

Cor da felicidade, da glória, da cultura, da harmonia, da sabedoria – isso é o amarelo.

Cada raça se considera o coroamento, o suprassumo da criação. Os brancos idealizam o branco, para os asiáticos o amarelo é a cor mais linda – muitos europeus custam a acreditar. Uma história chinesa da criação: Deus criou os homens, deu-lhes forma através de uma massa e os assou no forno. Os primeiros homens a saírem do forno ficaram mal assados – eram pálidos e brancos. Na segunda tentativa Deus os deixou por demasiado tempo no forno – eles ficaram pretos. Só na terceira tentativa foi que Deus conseguiu criar homens da cor ideal – amarelo-ouro.

Os chineses vivenciam o amarelo como a força natural que concede a vida. O norte da China é constantemente coberto pelo pó amarelo do deserto de Gobi, um pó solúvel que traz muitos benefícios à agricultura. O Huang He, o rio Amarelo, é amarelo em virtude da grande quantidade de limo que carrega.

A China sempre se autodenominou o “Império do Meio”, sendo a residência do Imperador o centro do mundo. A cor da majestade imperial era o amarelo. Existe uma figura legendária, o “imperador amarelo” Huang-ti, venerado como um deus, que deu aos homens a cultura. O último imperador da China, Pu Yi, nascido em 1906, escreveu em suas memórias: A cada vez que evoco a minha infância, um véu amarelo se estende sobre minhas recordações: amarelas eram as telhas esmaltadas dos telhados; amarelo meu palanquim; amarelo o forro de minhas roupas e do meu chapéu; meu cinturão era amarelo; eram amarelos os copos e pratos em que eu comia e bebia; meus livros eram encapados de amarelo; as cortinas do meu quarto, as rendas do meu cavalo – entre tudo que me rodeava nada havia que não fosse amarelo. Essa cor, chamada ‘amarelo luminoso’, era privilégio exclusivo da família imperial, e desde pequeno infundiu em minha consciência a ideia de que eu era alguém único, e que possuía uma ‘natureza celestial’.

Quando o imperador Pu Yi estava com cerca de dez anos ele teve que ir, pela primeira vez, visitar seu irmão Pu Dschie, um ano mais novo que ele; esse irmão não pertencia à família imperial. Casualmente, o jovem imperador de dez anos acaba percebendo sob a manga do quimono de seu irmão a cor do forro: “Pu Dschie, como é que usas essa cor? Quem te deu permissão para usá-la?”,
perguntei apreensivo.
“Isso não é amarelo damasco?”
“Mentiroso! Isso é amarelo imperial!”
“Sim, senhor, Majestade, às suas ordens, Majestade!”
“Isso é ‘amarelo luminoso’, não tens o direito de usar essa cor!”
“Às suas ordens, Majestade!”

Os imperadores chineses eram como filhos do céu. O amarelo, como cor imperial, é também a cor do Estado e da religião. A simbologia política e a religiosa são idênticas, o amarelo é sempre a cor mais elevada. Entre nós, estendemos aos soberanos um tapete vermelho – na China, o tapete é amarelo.

Também na Índia o amarelo é a cor dos deuses e dos governantes. 

A filosofia chinesa explica o destino do mundo, que é o destino do homem, por meio dos opostos complementares Yin e Yang. Yin é a força feminina, o princípio passivo, receptivo. Yang é a força masculina, o princípio ativo, criador. Yin e Yang são contrários, como causa e efeito: um não pode existir sem o outro. O amarelo, como cor mais elevada, é Yang, é masculina. Em toda cultura a cor mais importante é masculina. O masculino amarelo tem como seu polo oposto uma cor feminina, o preto. Na China, o branco e o preto são cores femininas. O preto simboliza o início, o nascimento, e o branco a morte, o fim. Essas são as forças femininas. As forças masculinas são as forças da vida e das cores cromáticas: o vermelho e o verde são também, além do amarelo, cores masculinas. A maioria das vezes, nós o encontramos com uma metade preta e a outra branca, porque para nós o preto e o branco são os opostos mais elementares; isso, porém, não está de acordo com o simbolismo cromático da China. Assim como os chineses preferem que o papel tenha certo tom de amarelo na impressão de livros, na China obtém-se automaticamente o contraste, para eles fundamental, do amarelo com o preto.

Na China, o amarelo é sempre bom, seja qual for sua composição.

O amarelo envelhecido

Alguns traços ínfimos de sujeira já bastam para tirar a luminosidade do amarelo, torná-lo acastanhado, cinzento. O amarelo puro é uma cor de coisa nova; o amarelo velho é chamado também de “envelhecido”. 

Do mesmo modo como o papel amarelece, na velhice os dentes também amarelam, assim como a tez e a cor dos olhos. O amarelecimento é a marca da idade, e da decadência. A pele se torna lívida também em consequência de raiva, de doença e de vida desregrada. 

O mau odor também é representado na propaganda por fumacinhas de um amarelo sujo. Na simbologia europeia, o amarelo é a cor da má reputação; a experiência da vida nos revela que o amarelo é a cor da má aparência.

O amarelo criativo

Um ovo frito com a gema azul, uma banana violeta, uma pera preta, pipoca rosa avermelhada, um limão vermelho, abacaxis azuis… – o amarelo natural desses alimentos foi substituído por cores estranhas, impossíveis – pode-se dar rédea solta à criatividade.

A massa italiana é amarela, mas também existe massa verde de espinafre, vermelha de tomates e parda de centeio; até mesmo preta, de tinta de lula. Mas quem é que desejaria uma massa azul – ainda que azul fosse a sua cor favorita?

A resistência aos alimentos coloridos artificialmente é menor quanto mais produtos artificiais vão sendo consumidos: as batatas chips poderiam ser vendidas e consumidas em diversos sabores e cores, como o verde menta e o vermelho bordô. As pipocas doces de milho se vendem coloridas em todas as cores. Variações semelhantes são possíveis ainda no mel, na mostarda, nos flocos de milho e nos queijos.

Deixando de lado esses fenômenos, são espantosamente poucos os artigos que se empacotam na cor amarela. A empresa mais conhecida cuja cor é amarela são os Correios. As caixas de correio amarelas têm melhor visibilidade à distância do que as azuis, as vermelhas ou as verdes de outros países.

Apesar de sua visibilidade, o amarelo só é escolhido pelos embaladores quando tem correspondência com o tema: protetores solares devem ter embalagens amarelas, combinando com o Sol; perfumes em embalagens amarelas devem sugerir aroma de flores; e a baunilha só poderia ser embalada na cor amarela. O amarelo parece ser uma cor muito difícil para a maioria dos desenhistas, isso porque as cores que o acompanham fazem facilmente com ele um acorde negativo.

 

Referência

Heller, Eva. A psicologia das cores:como as cores afetam a emoção e a razão. 1 ed.  São Paulo:Gustavo Gili. 2013.

O poder das cores nas nossas vidas. #vermelho

O poder das cores nas nossas vidas. # Azul

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